Estâncias da Fronteira é uma baita chamarra que tem os versos de Anomar Danúbio Vieira e melodia e arranjos de Marcello Caminha (essa dupla não erra uma!).

Foi apresentada pela 1ª vez em 29/01/1995, no palco do Teatro Ludovico Porzio, durante a IX Comparsa da Canção de Pinheiro Machado. Quem interpretou a marca foi o Joca Martins, o conjunto que o acompanhou era formado por Marcello Caminha, Carlos Madruga e Zulmar Benitez.

Não foi premiada no festival, mas é uma daquelas que a gauchada canta até hoje. Foi gravada pelo Luiz Marenco, pelo Joca Martins, pelo Marcelo Caminha, pelo Cesar Oliveira e Rogério Melo e não tem 1 gravação que não seja boa! E a título de curiosidade, tu vai encontrar essa música com 2 grafias: Estancias de Fronteira e Estancias da Fronteira.

Então agora bamo dar uma lida nos versos e analisar os detalhes dessa baita letra.

Guardiãs de pátria, memorial dos ancestrais
Onde trevais nascem junto ao pasto verde
Sangas correndo, açudes e mananciais
Pra o ano inteiro o gaderio matar a sede

Aqui se começa apresentando alguns detalhes das estâncias, mas não cita diretamente o que é, vai dando alguns detalhes. Fala que tem importância histórica que elas tem para a família e para o país e abundância de recursos naturais.

Grotas, canhadas e o poncho do macegal
Para o rebanho se abrigar nas invernias
Varzedo grande pra o retoço da potrada
Mostrar o viço e o valor das sesmarias

Segue descrevendo o relevo, as características que haviam nessas imponentes estâncias, fala da potrada se retoçando, correndo, bagunçando nos varzedos, mostrando o viço, a força e também o valor das sesmarias.

E lembrando que sesmaria ou sesmaria de campo é uma medida agrária, que corresponde a 3 léguas quadradas ou seja 3 mil por 9 mil braças (1 braça linear ou braça de campo tem 2,2m de comprimento) pra ficar mais fácil convertemos em hectares que dá 13.068 hectares de campo aberto. Que amplidão, né!?

Sombras fechadas de imponentes paraísos
Onde resollan pingos de lombo lavado
Que após a lida até parecem esculturas
Moldando a frente do galpão, templo sagrado

Paraíso é como são chamados os cinamomos na fronteira. E em seguida tem um termo interessante que é “resollan” que é castelhano e tem o sentido de que os cavalos descansam após a lida, aquele momento da desencilha, que ficam com o lombo lavado, com o pelo suado, que quando reflete o sol parecem esculturas em frente ao galpão, o templo sagrado da peonada, da nossa gente campeira.

Pras madrugadas, mate gordo bem cevado
Canto de galo que acordou pedindo vasa
Cheiro de flores, açucena, maçanilha
E um costilhar de novilha pingando graxa nas brasas

Nesse verso fala de como a lida se empeza, se começa nas estâncias. Ainda de madrugada, antes do Sol nascer, já se toma o mate. Em seguida o galo pede vasa e canta. E aí começa amanhecer e vem o cheiro das flores açucena e maçanilha. E no fogo tem uma costela pingando graxa pra sustância da peonada.

Pra os queixos crus, os bocais dos domadores
Freios de mola pra escaramuçar bem domados
E pra os torunos ressabiados de porteira
O doze braças, mangueirão dos descampados

E aqui mostra o que os animais em cada estágio de doma vão recebendo. Bocal pros xucros, freios de mola pra aqueles que estão sendo finalizados na mangueira. E os torunos são aqueles bois que são bravos, arredios, ressabiados, que enfrentam, então tem que laçar a dominar.

O termo toruno também significa o macho bovino castrado que, às vezes, comporta-se como touro, diante das vacas. Fica tentiando, com seus instintos, mas sua biologia atual não permite mais.

Pra os chuvisqueiros galopeados de minuano
Um campomar castelhano e o aba larga desabado
Pra o sol a pino dos mormaços de janeiro
Um palita avestruzeiro e o bilontra bem tapeado

Pra cada momento se tem a indumentária adequada, pros dias de chuva, um campomar, um poncho comprido, impermeável e um chapéu de aba larga desabado, que é pra água escorrer sem molhar o peão.

Já pros dias de verão, pros dias quentes, o pala avestruzeiro, pala liviano, pala de seda, de verão e um chapéu bilontra, que é uma referência a qualquer tipo de chapéu que esteja velho, surrado, puído, só pra proteger a cabeça do Sol.

Pras nazarenas, garrão forte e égua aporreada
Pras paleteadas o cepilhado de coxilha
Pra o progresso do Rio Grande estas estâncias
Mescla palácio com mangrulho farroupilha

As esporas nazarenas são essas esporas que se usava antigamente, bem pontudas, o nome é em referência aos espinhos da coroa de Jesus Cristo, o Nazareno. Precisam de um garrão forte e são pras éguas aporreadas, que não se deixam domar, ser contidas.

Pra uma paleteada, precisa de um “cepillado” um plainão de coxilha, pra poder escorar a rês.

E aqui finalmente fala o nome do assunto: Para o progresso, essas estâncias de fronteira que são uma mescla de palácio com um mangrulho. O Mangrulho é uma torre feita de madeira que se usava pra observação.

Então essas estâncias de fronteira tem essa mistura, são imponentes, chiques e importantes como um palácio, mas tem a sua rudez, sua rusticidade e função como um mangrulho farroupilha.

Temos que tirar o chapéu pro Anomar e pro Marcello, por que essa musica merece. Agradeço também ao Marcello Caminha que me confirmou algumas infomações e esclareceu algumas dúvidas que eu tinha. 

E com certeza, essa música tá eternizada na história do cancioneiro gaúcho e no coração de tanta gente por aí! Sem contar que tem um dos solos de violão mais bonitos da música gaúcha.

No mais, agradeço a parceria por ter assistido esse vídeo e deixo um abraço, do tamanho deste universo gaúcho! Até o próximo Linha Campeira!

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