Temos, no Rio Grande do Sul, uma das culturas mais autênticas e indentitárias do Brasil. Cultura expressada sob diferentes formas de manifestação como música, dança, poesia, atividades campeiras, culinária, vestuário tradicional e muito mais.

A cultura gaúcha envolve, na atualidade, milhares de pessoas que se envolvem diretamente nas suas mais variadas formas de expressão. E essa cultura não envolve apenas o tradicionalismo institucionalizado, mas ambientes onde a tradição se manifesta de forma espontânea.

Mas se essa tradição envolve tantas pessoas, tantas cidades, tantas instituições, por que, afinal, continuamos a ler nos jornais frases como estas: “A tradição é uma invenção e, às vezes, precisa ser reinventada”?

Ora, vejamos: a nossa tradição gaúcha não nasce com o MTG; não nasce com Paixão Cortes ou Barbosa Lessa nos idos dos anos 1950. Ela tem raízes muito mais profundas. Cezimbra Jaques, aqui no Rio Grande do Sul, já falava da importância de resgatar o tradicionalismo nos idos dos anos 1900. Elías Regules, o pai do tradicionalismo, fez o mesmo no Uruguai.

Dentro da literatura gauchesca, o grande clássico argentino Martín Fierro foi publicado pela primeira vez em 1872. O Gaúcho, de José de Alencar, em 1870. Podem-se somar nestes livros, uma infinidade de exemplos como Los tres gauchos orientales, Tabaré, Santos Vega, Contos Gauchescos ou Antônio Chimango. Mas o que isso quer dizer?

O surgimento destes livros aponta para uma valorização das culturas regionais, no caso específico, da nossa cultura gaúcha. E aqui, um pequeno recorte: cultura esta, que rompe as fronteiras do nosso estado para abranger o Uruguai e a Argentina.

E é a própria História do gaúcho curiosa, porque ele simplesmente não brotou aqui, mas foi sendo construído ao longo dos séculos. Não cabe neste momento, revisarmos essa história. Mas é importante dizer que, este gaúcho, ao ser literalmente formado nesta terra, obrigatoriamente trilhou um caminho, ou seja, a criação do próprio personagem está intimamente ligada à História.

Uma tradição, para ser inventada, necessita, obrigatoriamente de peças, meios ou símbolos para expressar esta cultura. A nossa é formada por símbolos que são reconhecidos e aceitos por uma comunidade ampla que inclusive, como comentamos, rompe as próprias fronteiras do país, para abarcar uma região muito maior.

O nossa tradição tem sim a eleição de muitos símbolos, como é o nosso hino, como é o brasão do nosso estado ou como é a nossa pilcha. Mas no caso da última, por exemplo, ela não foi inventada por “uma mente brilhante”, mas sim, pelos usos e costumes de um povo, ao longo dos séculos, onde esses conhecimentos foram sendo transmitidos.

Os elementos que compõe as nossas tradições, não foram inventados. Eles foram eleitos. Seja uma peça de roupa, uma dança, uma música, tudo, permeou a nossa história, os nosso costumes. Alguns mais, outros menos. Não foram inventados (no sentido literal da palavra).

O que acontece, seja dentro do movimento tradicionalista ou fora dele, é que elegemos aquilo que é funcional para uma determinada época e que faz sentido para cada um, dentro de uma coletividade, que compreendem que tem relação com a nossa cultura e merece ser reavivado… preservado. Portanto, a teoria da Tradição Inventada não cabe a nós.

Então, o que é tradição?

Tradição gaúcha é um conjunto de crenças, valores, saberes e símbolos, aceitos e eleitos por um povo, restrito à um território, transmitidos por oralidade, expressada em diferentes manifestações e alicerçada na História.

Vivemos um tempo onde, ao que parece, o revisionismo é a palavra da vez; é palavra de ordem. Mas, diferente do que possam falar, nós, os tradicionalistas, não seguimos uma “cartilha”. O que nos move é algo muito maior. É sim acreditar no nosso legado, é respeitar a nossa História e é vibrar com a nossa cultura. Nós reconhecemos e valorizamos a nossa herança.

Ao que parece, esses ataques não se restringem à nossa cultura. Muitas culturas regionais mundo afora sofrem com ataques parecidos, vindos, na maioria das vezes, de gente que pouco ou nada fez por estas culturas. E é curioso, mas, 100 anos atrás , o grande escritor inglês GK Chesterton escreveu:

“Tão forte é a tradição que as gerações futuras sonharão com aquilo que elas nunca viram.”

Concluímos dizendo que, quando lerem a frases prontas, de efeito e “lacradoras” como as citadas, lembrem-se das gerações e gerações que nos antecederam, que viveram, lutaram, suaram e, por que não, sangraram para nos legar justamente o que temos hoje em nossas mãos: a nossa tradição.

Assinam o texto:
Edinéia Pereira, Henrique Fagundes da Costa, Juarez Paiva Junior e Lucas Negri

Publicação original no Instagram:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *