O silêncio do galpão, na rodilha dos peões, à roda do fogo, foi quebrado pelo ronco da cuia nas mãos do tio Chiru índio velho antigo, há tempos, aplastado, numa meditação misteriosa, sorvendo aquêle amargo.

Nisto, o Severiano, peão trançador da estância, perguntou-lhe, se êle, como torena da antiguidade, não sabia algum segrêdo para preparar um laço e ser um bom laçador.

— Ora se sei!.. Respondeu ao “pé da letra”, o índio velho. É muito fácil. Basta um pouco de coragem, no mas. É só batizar o laço, assim como Maneco Pereira fêz com o seu.

— Mas, como?.. O laço de Maneco Pereira tinha batismo?.. Interrogaram-lhe em côro, tôda peonada.

— Claro que sim!.. Antigamente se batizava o laço para se ter mais sorte e não errar nenhum pealo.

— Escutem só — continuou — vou ensinar a vocês como se faz e, se quiserem, desde já, podem dar jeito. Começa-se assim:

O trançador tira o couro de uma vaca magra, de pêlo brasina, carneada na lua minguante, lonqueia na perna e para emparelhar, estaqueia numa ladeira com as anqueiras para cima; depois de sêco, arranca-o das estacas e guarda-o num quarto escuro até a “semana da paixão”.

Quando apontar as barras do dia da quarta-feira da semana santa, êle corta-o, emparelha-o e desquina os tentos, começando logo a trança. Manda fazer para ficar pronta até quinta-feira, uma argola de aço, e à noite dêsse dia, procura uma toca de cobra e coloca-a na bôca do buraco, de maneiras que a cobra saindo passe por dentro dela.

No outro dia, sexta-feira santa, o trançador apronta a presilha, termina a ilhaça e prende-a na argola virgem. Tudo deve ficar pronto nesse dia.

Depois, o laçador campeia na mangueira aquela volta fôfa que há em tôdas elas, onde correm as águas e junta o estêrco, enterra o laço e deixa-o, não olhando mais para trás.

Quando der meia-noite em ponto, dessa sexta-feira, o índio vai a mangueira buscá-lo. Aí que está o apêrto. Tem que ter “sangue no ôlho”, senão arrepia, volta e dispara. É que em vez de encontrar o laço, vai se topar com enorme cobra de fogo, a dar botes e chamuscar quem se aproxima. É o diabo assim transformado, que em troca da alma do vivente, está metido no laço, fazendo gambetas para “exprementar” o iniciado. Êste não pode se assustar, tem de chegar à moda mais, passar a mão no laço encantado, enrodilhá-lo e levá-lo a um gancho de pitangueira preta, antes preparado e ajeitado no galpão.

Se assim o fizer, está feita a vaca com o diabo.

Do outro dia em diante, êle será o “rei do laço. No que atirar para laçar, tendo cabeça será laçado; no que atirar para pealar, tendo pernas será pealado, e o que laçar para puxar, tendo pernas será puxado sem rebentar. Seja pequeno ou grande, caminhe ou ande de rasto; pise na terra ou viva na água; ande ao passo ou a trote, galopeie ou dispare. Nunca rebentará, nem será ramalhado, aguentará todo o tirão e arrastará qualquer pêso, na cincha do cavalo, sem nunca envelhecer… Nada escapará ao laço batizado, é como pensamento, assim como a imaginação, faz o que a vontade mandar, sem ser desobedecida.

O seu dono deverá ter cautela e não esquecer de quando chegar do campo, dependurar no gancho que o enfiou a primeira vez.

Se por acaso perder o laço numa campereada ou corrida de veado ou mesmo em alguma viagem, perto ou longe das casas, em campo sujo ou limpo, em lugar sêco ou na água, no mato ou na enchente correntosa, não precisará se preocupar em procurá-lo; pode ficar tranquilo; no outro dia êle amanhecerá dependurado no gancho do batismo.

Agora, para não quebrar o efeito e nem perder a virtude não deverá deixar passar pelas suas costas: entêrro ou vela acesa, sal de cozinha ou terra de cemitério e jamais perderá um só tiro de laço.

Texto extraído do livro: Maneco Pereira – O homem que laçava com o pé, de Osório Santana Figueiredo.

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