Dona Catala – uma legenda da Fronteira Gaúcha
Quando pensamos na lida bruta da fronteira e no amanso de cavalos xucros, a imagem que logo nos vem à cabeça é a do peão forjado a galpão. Mas a história dos nossos pampas também foi escrita por mulheres de fibra e coragem inigualáveis. Uma dessas lendas vivas foi Catarina da Rosa, eternizada no imaginário regional como a inesquecível Dona Catala.
Mestiça, “retacona”, de pernas cambas e cabelos endurecidos pelo sol da campanha, Catala viveu na região entre São Marcos e Capivari, nos arredores de Uruguaiana. Ela não apenas quebrou paradigmas em uma época dominada por homens, mas também provou que a bravura e a doçura podem caminhar lado a lado na mesma encilha.
De Viúva a Domadora de Respeito
A vida de Catala nos arreios começou após uma tragédia. Seu marido, o domador índio conhecido como Manoel Pelado, perdeu a vida após um fatídico corcovo de um cavalo. Sozinha e com três filhos para criar (Anita, Alcides e Alexandre), ela não se mixou: assumiu a tropilha do marido e a dura lida de quebrar queixo de potro.
Gineteando “por palavra de honra” para cumprir os compromissos de doma do falecido, ela calçou suas botas de meio-cano, vestiu bombachas largas e fez o próprio nome. Seu talento e suor renderam frutos: em 1909, registrou oficialmente sua própria marca na Prefeitura de Uruguaiana e formou uma bela manada de éguas lazonas em seu rancho, à beira do Lagoão do Camoatí.
A Parteira que Trazia Sorte
Se na mangueira ela era implacável com os baguais, dentro dos ranchos da vizinhança ela era um verdadeiro anjo. Dona Catala era a parteira da região.
Não havia tempo ruim que a segurasse. Sob chuva, raios ou nas madrugadas brancas de geada do rigoroso inverno gaúcho, ela montava em sua lazona e varava léguas para socorrer as parturientes. Diziam na redondeza que Catala “dava sorte”, e sua alegria era um alento nas horas de dor. Seus métodos, rústicos como a vida no campo, eram eficientes:
O corte: O cordão umbilical era cortado à faca, com sua própria “cherenga” de picar fumo.
O curativo: Amarrava com fio de pavio de vela, colocava um pouco de erva nova e uma moeda de cobre por cima para curar o umbigo.
O pagamento: Por todo esse trabalho e dedicação, ela não exigia dinheiro. A vizinhança já a esperava com sua “bebida” predileta: um simples e doce copo de água com açúcar!
Gaiteira, Filósofa e Dona de Causos
Além do laço e dos partos, Dona Catala alegrava os encontros com sua gaita de oito baixos. Tinha um repertório próprio, embalando a famosa “Polca da Porca Renga”. Dona de um vocabulário tipicamente agreste, ela não dizia, por exemplo, que ia carnear uma rês; seu termo era “desfolhar a rês”.
Seu humor afiado e sua sabedoria campeira renderam causos memoráveis:
O Bom Vinho
Já mais velha, alguém a viu galopando forte em sua égua e perguntou se ela ainda andava a galope. A resposta veio na ponta da língua: “Tu sabe, meu fio, que quem foi bom vinho é bom vinagre!”
O Copo Meio Cheio
Certa vez, socorreu um cavaleiro que havia caído do cavalo e quebrado a perna. Após enfaixá-lo, disparou: “Graças a Deus que vancê quebrou a perna”. O peão, assustado, perguntou se ela lhe desejava o mal. E ela respondeu: “Não senhor! Imagine se vancê tivesse quebrado o pescoço? Perna vancê tem duas. Pescoço, um só… Graças a Deus!”
Um Legado na Memória do Sul
A importância dessa mulher foi tão grande que ela virou verso. A história das parteiras de campanha, inspirada em figuras como ela, foi homenageada na música “Rifões do Rio Grande” (de Aparício Silva Rillo e José Bicca), que marcou presença na tradicional 5ª Califórnia da Canção Nativa.
Dona Catala é o retrato fiel da mulher gaúcha: forjada na lida bruta, mas com o coração do tamanho do pampa. Uma lenda que merece ser lembrada e reverenciada por todas as gerações que cultuam a nossa tradição.
Texto com informações retiradas do livro: Campos Realengos: formação da fronteira sudoeste do Rio Grande do Sul, de Raul Pont.
(PONT, Raul. Campos Realengos: formação da fronteira sudoeste do Rio Grande do Sul. 2a ed. Editora Edigal: Porto Alegre. Vols. I e II, 884p., Ilustrado. 1983. ISBN (CDU): 981.65)

