Tu já deve ter se perguntado desde quando existe a Semana Farroupilha? E os acampamentos e toda essa movimentação de setembro! Te garanto que é uma baita história.

O costume de celebrar a Semana Farroupilha é devidamente recente e está intimamente ligado a uma das mais importantes figuras da cultura gaúcha: João Carlos D’Ávila Paixão Cortes.

E ele conta tudo, mas tudo mesmo, sobre a origem aqui nesse livro: Origem da Semana Farroupilha – Primórdios do Movimento Tradicionalista.

E existe um capítulo chamado: A Semana Farroupilha se originou da Ronda. Então a gente precisa saber os motivos da Ronda Crioula pra saber da origem da Semana Farroupilha. Certo?

E tudo começa na segunda metade dos anos 40, depois da Segunda Guerra Mundial, quando a sociedade brasileira passava por um forte momento de americanização. O cowboy ganhava as telas de cinema, os quadrinhos. Era calça jeans e botinas quadradas que apareciam como a nova era. Se desaparecia o senso de pertencimento, os costumes terrunhos iam sendo esquecidos, inclusive na literatura, onde a maioria dos escritores escrevia sobre temas distantes da terra e da vida campesina.

Vale lembrar que em 1937, o gaúcho Getúlio Vargas em seu Estado Novo, mandara queimar as bandeiras estaduais em praça pública, só podia ostentar a una e poderosa bandeira brasileira. No Rio Grande do Sul, as bandeiras não foram queimadas, mas foram recolhidas. Não podia nem deixar elas penduradas dentro de casa, pois caso alguém visse seria denunciado ao famoso DOPS. Inclusive a única empresa que fabricava o pavilhão farroupilha, a Picoral, encerrou as suas atividades. Nessa época, também nas cerimônias oficiais do Estado, não se cantava o hino Rio-Grandense.

As bandeiras rio-grandenses só voltaram a ser exibidas depois do fim do Estado Novo com a constituição de 1946. Nessa época o Paixão conta que uma vez ele estava em um café no centro da cidade, próximo ao Colégio Julio de Castilhos, onde estudava e reparou que havia uma bandeira do Rio Grande do Sul esfiapada sendo usada como cortina, pra separar as garrafas de bebidas dos cigarros. Diz que aquela cena causou uma revolta profunda no jovem João Carlos que protestou veementemente com o proprietário do bar, que sequer nem sabia que aquele pano rasgado era o honrado pavilhão tricolor. 

E foi nesses tempos nebulosos que surgiu, no final de agosto de 1947, o Departamento de Tradições Gaúchas, junto ao Grêmio Estudantil do Colégio Julio de Castilhos, que tinha por finalidade preservar, desenvolver e proporcionar uma revitalização da cultura gaúcha, interligando de forma mais valorizada junto à cultura brasileira. 

E uma das primeiras ações do DTG foi criar a Ronda Crioula, de 07 a 20 de setembro. E o nome ronda foi dado pelo próprio Paixão Cortes, em referência às noites de ronda que se tinha nas tropeadas, onde os tropeiros precisavam ficar acordados a noite, rondando o gado, cantarolando, assobiando pra acalmar os animais. Enquanto ali perto os outros ficam cuidado do fogo. E aí ao redor do fogo é o momento do mate, da prosa larga, dos causos, da integração dos gaúchos, por isso o nome Ronda Crioula foi escolhido, pela simbologia.

Então os integrantes do DTG também tiveram a ideia de escoltar à cavalo os restos mortais de David Canabarro no dia 05 de setembro de 1947 e depois na noite do dia 07 de setembro, colher uma centelha da chama da pátria para fazer a chama crioula. 

Durante os dias da Ronda Crioula, 08 à 20 de setembro de 1947, tiveram diversas atividades culturais, folclóricas, artísticas, literárias e até campeiras. Teve declamação de poesias, causos, também palestras como a com o Manoelito de Ornelas, teve assado, teve concurso de tiro de laço e de boleadeira e também um grandioso baile no Teresópolis Tênis Clube, dia 20 de Setembro, que por acaso do destino caiu em um sábado e foi um baita baile, repare bem nas fotos aí que apareceram que são todas dessa data. E aí a meia-noite se extinguiu a Chama Crioula, mas o baile seguiu madrugada adentro.

No ano seguinte de 1948, surge o 35 CTG – o primeiro CTG do universo, fundado por muitos dos membros do DTG que já haviam concluído os estudos. E aí, nos anos 50, começaram a ter diversas rondas e eventos alusivos, mas só que cada grupo fazia ao seu jeito, de forma descoordenada. Então tinha desfile a cavalo em um bairro, baile no outro e no mesmo horário, ninguém conseguia comunicar direito e ficava muita gente de fora pois não se sabia onde estavam acontecendo os festejos.

Durante a década de 50 foi assim que aconteciam as festas gaúchas de setembro, mas nessa época não existia o 20 de Setembro como dia do gaúcho ou feriado. Eram só comemorações alusivas mas nada oficial.

Aí em 1955 estreou na Radio Farroupilha o programa “O Grande Rodeio Coringa” apresentado por Paixão Cortes e Darcy Fagundes e dirigido pelo paulista Octavio Augusto Vampré, que era um grande conhecedor do radio-teatro. Nesse programa tinha musica, trova, declamação, causos, mas tudo com temática gauchesca e mudou a história do radio e da musica no Rio Grande do Sul.

O Paixão Cortes apresentou esse programa por um tempo, depois foi pra rádio gaúcha fazer o Festança na Querência junto o Dimas Costa, quando o Octavio Augusto Vampré chegou pra ele e pediu ajuda para montar uma ideia pra organizar as comemorações da Revolução Farroupilha mas de forma oficial por meio do poder público. Obviamente o Paixão topou e segundo o que o Paixão conta, foi o paulista Vampré, que pessoalmente, usando de sua influência articulou e sensibilizou os deputados rio-grandenses a oficializar a Semana Farroupilha.

Então em 11 de dezembro de 1964, pela Lei 4850, se oficializava a Semana Farroupilha no Rio Grande do Sul, a ser comemorada de 14 a 20 de setembro de cada em homenagem à memória do Heroi Farroupilha. E dizia que era responsabilidade da Secretaria de Cultura e da Brigada Militar organizar e orientar as festividades.

Em 1965, o Governo Estadual mandou construir um Galpão Crioulo no Largo do Monumento à Bento Gonçalves, com fogo de chão, onde a gauchada poderia se encontrar pra matear, prosear, tocar umas músicas e também os grupos folclóricos se apresentarem.

Então a partir daí a Semana Farroupilha se tornou um evento oficial do Estado. Depois tiveram algumas alterações na Lei, em 1980 o MTG se junto a Secretaria de Cultura e a Brigada como organizadores. Depois muito mais gente começou a participar e querem dar pitacos nas festividades, aí em 1988 teve outra lei que criava as comissões para os festejos.

E uma coisa interessante é que se tinha a Semana Farroupilha, de forma oficial, com calendário, solenidades, festividades e tudo mais, mas o 20 de setembro não era feriado e nem era o dia do gaúcho. Em 1955 o governador até declarou o Dia do Gaúcho em 20 de setembro, mas uma limitação por Decreto Federal acabou com a Lei.

Depois lá em 1985, tiveram a “brilhante” ideia de colocar o Dia do Gaúcho em 20 de abril, data da Primeira Assembleia Provincial Constituinte em 1835. Mas só que foi uma data que não pegou e ninguém dava a devida comemoração. Mas desde o inicio desse movimento, sempre foi defendido para o Dia do Gaúcho ser dia 20 de Setembro. Mas aí depois em 1991, pela Lei Nº 9.405 o Dia do Gaúcho foi transferido pra 20/09 e agora não sai mais da nossa data magna.

E uma coisa interessante é que esse livro foi editado antes de 1991, por isso o ultimo capítulo é Dia do Gaúcho – uma data que não se consagrou. Mas por sorte o Paixão pode vivenciar muitos e muitos vintes de setembro depois disso.

Então essa é a história da Semana Farroupilha que começou com um grupo de estudantes e hoje é a maior festa popular do nosso Estado e também é comemorada em Santa Catarina, Paraná, outras regiões e até fora do Brasil. Isso mostra a força da nossa cultura, das nossas raízes. É a identidade do nosso povo que nasce e renasce de novo e de novo com orgulho de ser gaúcha!

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