Domingueiro é um rasguido doble que tem os versos de Eduardo Soares e melodia de Juliano Gomes e Joca Martins. E o próprio Joca me contou que ele tava com a letra dessa música guardada na caixa do violão, há alguns meses e não conseguia ajeitar uma melodia que encaixasse nela, aí numa feita em Jaguari se topou com o Juliano Gomes e mostrou a letra pra ele, que de vereda já saiu cantando o refrão e em seguida o Joca já atracou o restante da música. E a música que tava há tempos guardada, ficou pronta em alguns minutos. E que punhado de inspiração!

Essa música foi apresentada pela primeira vez no Festival Canoa do Canto Nativo, em Canoas, defendida pelo próprio Joca Martins. Aí depois ele gravou em seu álbum de mesmo nome: Domingueiro, no ano de 2007. Também saiu em 2014 no DVD Cavalo Crioulo, além de duas versões ao vivo do DVD 30 Anos, gravada em 2016 no Theatro Guarany em Pelotas que tem a participação Luiz Marenco e depois em 2021 tem mais uma para o projeto Clássicos nas Estâncias.

E a letra de Domingueiro fala de um peão que tá no seu dia de folga, aí se ajeita bem a capricho, tanto ele quanto os aperos do cavalo, pra visitar o povoado, pra visitar a sua amada. E tudo isso é bem narrado, dando ênfase as pilchas e as encilhas, coisas que o peão valoriza muito. Então bamo dar uma lida na letra e analisar essa baita marca verso a verso.

De cavalo encilhado
Na frente da estância
O preparo prateado
Luzia no Sol
Com florão na peiteira
O encontro do mouro
Traz em fios de ouro
Um campeiro arrebol

E aqui vai começando a montar a cena, um dia ensolarado, pingo encilhado na frente da estância com tudo o que tem direito. O preparo é um sinônimo para os arreios, que tem prata ou alpaca, que chega a luzir no Sol. 

Na peiteira um florão com detalhes de ouro, que fica em cima dos encontros, que é como se chama os musculos do peito do cavalo, que por sinal é um mouro (e convenhamos que é uma das pelagem mais linda que tem)

E a peiteira não tem apenas função decorativa, ela serve para impedir que o arreio deslize pra trás, assim ela fica estável no lombo do cavalo.

E finaliza o verso como “um campeiro arrebol”. Arrebol é uma referência à cor do céu, nos fins de tarde, crepúsculo, quando o céu tá naquele avermelhado lindo.

A pilcha reservada
Pra folga da lida
E uma boinita antiga
Atirada pra trás
A bota fandangueira
Vai junto aos peçuelos
Pra não suar no cavalo
Ao trote no más

Se na outra estrofe o tema é o pingo, nessa o tema é o gaúcho. São apenas oito linhas, mas que nos contam muita coisa sobre a estampa do gaúcho. Repare que fala da pilcha reservada pra folga e a bota fandangueira que vai nos peçuelos pra não suar.

Isso mostra o cuidado que o gaúcho tem com os momentos de festa, de sair pro povo. As pilchas de serviço ficam em casa. A bota de lida, com marcas de loros, pedra, barro suor é usada pro percurso, mas depois quando vai apear, ele calça as botas de baile, limpas, lustradas, bem novinhas, pra impressionar os outros.

E aqui eu quero fazer um aparte, pois é bem comum a gente olhar e julgar o povo pilchado, esse aí tá com uma pilcha de baile, nunca sujou as bota de barro de mangueira. Lenço dobrado, passado à ferro, bombacha e camisa de certo foi a mãe que passou. Mas é importante a gente separar os momentos, o gaúcho sempre foi caprichoso com as suas coisas, olha a riqueza que são os conjuntos de aperos que temos, com preparos chapeados, trançados caprichados e até ouro em alguns momentos. Mas esses eram usados nesses momentos, de festa, de carreirada. O mesmo vale pras pilchas, o melhor era quando ia se mostrar.

Mas quando se tá na lida, a gente sabe bem como é. No meio do campo, chuva, umidade, poeira, vento, o bicharedo, não tem filtro é a natureza no seu estado mais puro… o gaucho trabalha a campo aberto, se suja. Isso é como o gaúcho e a nossa tradição foi forjada.

Só que temos que ter essa distinção de que cada momento exige uma apresentação.

Com jeitão bem domingueiro
Um mourito pela estrada
Leva a estampa de campeiro
Pra os carinhos da amada

E que baita refrão esse! Jeitão bem domingueiro… o peão tá bem arrumado, bem pachola, bem vestido, melhor chapéu, melhor bombacha, lenço bem ajeitado e com uma camisa nova de preferência, como essa minha aqui, da Insider. É isso mesmo, tche! As camisas da marca Insider são loca de buena, qualidade, durabilidade e tecnologia. Essas camisas aqui vão se ajeitando no corpo, se desamassando e deixam o vivente bem alinhado por muito tempo. E tu pode comprar essa e outras peças da marca Insider, clicando aqui. Use o cupom LINHACAMPEIRA que vai te dar um baita desconto de 20%, além de ajudar esse nosso canal aqui! 

Um pealo de cucharra
Parou o meu destino
Qual um potro malino
Junto ao domador
E as ânsias de domingo
Apearam do pingo
Num ranchito fronteiro
Emponchado de amor

E aqui confirma as expectativas do peão que se gastou pra se ajeitar, ficar bem arrumado pra encontrar a sua prenda. E é interessante que usa uns termos bem campeiros pra mostrar que o gaucho tá bem apaixonado. Um pealo de cucharra parou o destino, ou seja, ele não tava esperando se apaixonar, mas a gente sabe que isso não se controla, igual a um pealo, depois que pega é só guentar o tirão.

E diz que as ânsias de domingo, pois passou a semana inteira esperando o momento, apearam em frente ao rancho da amada que também o esperava, emponchados de amor. Mas te digo de apaixonamento!

O pingo das confiança
Pastando flechilha
Os arreios da encilha
Dentro do galpão
O sonho de campeiro
Estendendo baixeiro
Pra bombear luzeiros
Nessa imensidão

E aqui mostra como que se encerrou o domingo. O mouro ficou ali no pátio, pastando as flechilhas, a grama. Os arreios estão guardados dentro do galpão e aí o sonho dele se fez realidade. Se aprumou a noite toda com a prenda amada. Esse termo “estender baixeiro” faz sentido à fazer a cama de arreio, mas a gente pode levar pro lado figurado de arrumar companhia, ter alguém, não ficar mais sozinho… e aí como o amor se consumou foi de ficar os dois ali vendo o céu e as estrelas na imensidão.

Que baita letra, né?! E aqui ainda repete esse baita refrão antes de finalizar. Que baita marca é essa: Domingueiro! Eu gosto por demais!

Agradeço imensamente a esse grande artistas da nossa música que é o Joca Martins que me confirmou algumas informações a respeito da história da música. Se assistiu até aqui, comenta com o emoji do cavalo pra eu saber!

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