Os silêncios das janelas do povoado é uma milonga, que tem os versos de Gujo Teixeira e melodia de Luiz Marenco. Foi apresentada pela primeira vez na IX Estância da Canção Gaúcha, de São Gabriel no ano de 2001 e foi a grande campeã do festival e também premiada como Melhor Letra. Depois foi gravada pelo próprio Luiz Marenco em 2 álbuns: Interior, de 2003 e no CD e DVD Identidade, em 2008, e essa pra mim é a melhor versão dessa música. E quem sempre cantou essa música junto com o Marenco foi o Gustavo Teixeira.
E quero aqui agradecer imensamente o Gujo Teixeira que me confirmou algumas informações a respeito da música e me disse que dentro da mesma história tem outra letra dele que o Marenco gravou.
E a letra d’Os Silêncios das Janelas do Povoado aborda um tema pesado, que são os mandados de silêncio. As execuções, algo que existe desde que o mundo é mundo. E não ache que isso ficou no passado, no tempo das revoluções, no tempo da degola. Quando ouvimos já pensamos que o enredo se passa na revolução federalista, que foi de 1893 a 1895, que também é chamada de Revolta da Degola, por essa forma de execução ser muito utilizada, tanto por ambos os lados, maragatos e pica-paus.
E de fato, nesses tempos havia muito esse tipo de execução. Tempos onde a lei era diferente, onde a sociedade e sociabilidade não tinha esse padrão.
Vamos dar aquela analisada verso a verso, por que essa música tem umas quantas metáforas que são lindas que descrevem o ambiente. É de passar um filme na cabeça!
Era um fim de dia quieto / Para quem quisesse ouvi-lo
Apesar do céu sangrando / Alguns mateavam tranquilos.
Foi quando cascos nas pedras / E constâncias de esporas
Quebraram o calmo das casas / Chamando olhares pra fora.
E já começa montando a cena, um local quieto, no interior do Rio Grande, fim de tarde, o céu avermelhado, como se estivesse sangrando. Mesmo assim as pessoas ali do povoado mateavam tranquilo, dentro das casas. Quando de repente barulhos de cascos nas pedras e os tilintar das esporas quebram o calmo, deixam um clima tenso no ar e aí o povo já olha pra fora pra saber o que tava se passando.
Iam adentrando o povoado / Quatro homens bem montados
Três baios de cabos-negros / Bem à direita um gateado.
Ponchos negros sobre os ombros, / Chapéus batidos na face
Silhuetas desconhecidas / Pra qualquer um que olhasse.
E os 4 homens vem se chegando, vestindo ponchos e chapéus batidos, justamente pra dificultar o reconhecimento. A única coisa que não tinha como esconder era o pelo do cavalo. Por isso os cavalos todo mundo sabia bem 3 baios cabos-negros e um gateado.
Traziam vozes de mandos / Nas suas bocas cerradas
E aparecendo nos ponchos / Pontas de adagas afiadas.
Olhavam sempre por perto / Até mirarem um “ranchito”
E sofrenarem os cavalo / Onde um apeou solito.
Olhe que interessante o poder do silêncio, vinham com o mandado, mas de boca cerrada, olhando sempre ao redor, buscando atento. Embaixo dos ponchos reluzia a adaga, dando um recado sem precisar alarmar. Quando viram o alvo, sofrenaram, pararam os cavalos e só 1 que apeou.
Primeiro um rangido fraco / Depois um grito “prendido”
E a intenção da adaga / Tinha mostrado sentido.
E os quatro em seus silêncios / Voltaram no mesmo tranco
Deixando junto a soleira / Vermelho, um lenço branco.
Então o vivente entra na casa, sorrateiramente, um rangido fraco da porta. E o grito prendido, tapado, abafado com a mão na boca. E aí o porque dele carregar a adaga já estava explicado. O homem deixa a casa, monta no cavalo e voltar no mesmo tranco, como se nada demais tivesse acontecido. O que restou foi no chão, junto a soleira da porta um lenço branco tingido de sangue.
Era mais um que ficava / Depois que os quatro partiam
Por certo em baixo dos ponchos / Algum mandado traziam.
Traziam fios de adagas / E silêncios pra entregar…
– Era um gateado e três baios – Foi o que deu pra enxergar!
E aqui ficou o comentário do povo… só deu pra identificar os cavalos mesmo. O gateado e os três baios. E por certo algum mandado tinham e o silêncio foi entregue.
Ninguém sabe, ninguém viu / Notícias virão depois.
Alguém firmava na adaga / Só não se sabe quem foi.
E o povoado segue o mesmo / Dormindo sempre mais cedo
Dormem ouvindo o silêncio / E silenciam por medo!
Ninguém sabe de nada, ninguém quis parar os home pra perguntar. As notícias vem depois, sempre alguém vai contar, se especular o que aconteceu. Um deles firmava na adaga, um deles degolou, só que ninguém sabe quem foi quem fez.
E o povoado segue o mesmo, só que mais silente, não um silêncio de paz, não um silêncio de respeito, mas sim um silêncio de medo. Afinal, quem abrisse muito a boca, poderia receber a visita dos ponchos com adagas afiadas montado nos três baios e no gateado.
Mas vai me dizer que não daria um filme essa música?! É de arrepiar essa letra! Eu gosto por demais. A música que é irmã dessa é “Foi bem assim o que vi…” que o Luiz Marenco gravou pro CD Bem na Porteira do Gujo.
E parece que as notícias chegaram depois e alguém do povoado viu muito mais do que um gateado e três baios naquela noite escura. Te surpreendeu essa também? Então comenta aqui com o emoji dos OLHOS 👀
E sobre a história do vestibular, essa música foi questão no vestibular da Universidade Federal de Pelotas, na prova de Literatura, de 2019. Tinha a letra da música e o enunciado era:
Com base na letra da canção e nos teus conhecimentos pessoais, analise as assertivas a seguir:
I) Os versos da 4ª estrofe fazem referência explícita à prática da degola.
II) No verso “Traziam fios de adagas, e silêncios pra entregar…”, temos a presença de um eufemismo para a morte.
III) A letra da música enfatiza o silêncio como algo que causa temor e morte, como comprova o último verso: “Dormem ouvindo o silêncio e silenciam por medo”.
IV) A letra da música critica a violência da revolução que acabou por transformar a vida até então pacata e tranquila do povo gaúcho.Estão corretas:
A) II e IV, apenas.
B) I e II, apenas.
C) II e III, apenas.
D) III e IV, apenas.
E) I e III, apenas.
Essa eu acertava fácil. Tu sabe a resposta, deixe ela nos comentários, se tu acertar eu vou dar um bueno no teu comentário! Te agradeço pela parceria, de ter assistido o vídeo. Valorize a nossa poesia, valorize a nossa música, valorize a nossa cultura! Deixo o meu abraço do tamanho deste universo gaúcho e até o próximo Linha Campeira!