“No rastro da gadaria” é uma chamamé que tem letra e melodia de Jairo Lambari Fernandes. Foi apresentada pela primeira vez em Abril de 1999, na 10ª Vigília do Canto Gaúcho, na cidade de Cachoeira do Sul. Foi defendida pelo próprio Jairo e pelo Nilton Ferreira.
Essa música foi gravada pelo Jairo em 2 álbuns: De flor e luna (2002) e no Cena de Campo (2011). Diversos outros artistas também gravaram como Volmir Martins, Abramo Machado e Felipe Araújo, Gustavo Brodinho, Grupo Cambichos, Jonathan Pacheco e Alessandro Martins.
E a letra de No Rastro da Gadaria fala sobre uma tropeada de gado e os desafios dessa vida de peão, tanto os físicos, quanto os da natureza e até os sentimentais. Então bamo dar uma lida na letra e analisar essa baita marca verso a verso.
Já faz três dias que eu culatreio esta tropa
Que vem mermando, quase chegando ao destino
Canso cavalos no rastro da gadaria
Nas alegrias poucas de um campesino
Já começa contando que o peão está na culatra, na parte posterior da tropa. E aí diz que a tropa vem mermando, vem perdendo o peso de acordo com o ritmo dessa tropeada.
Só mais uns dias e a tropeada se termina
Minguada é a plata pra os que rondam madrugadas
Empurrando bois nos encontros dos cavalos
De longe, os galos prenunciam alvoradas
Como a já dito, a tropa tá quase sendo entregue. E a plata é minguada pra peonada. O pagamento é pouco comparado ao tempo de serviço. Pois numa tropeada as vezes é preciso fazer ronda redonda, a madrugada inteira. Empurrando os bois, nos encontros, no peito do cavalos, pra manter o gado junto. E lá ao longe o galo canta dizendo que tá
De vez em quando um sapucay chamando a ponta
E um índio touro abre o peito e atropela
Um cusco baio se revolta e garroneia
O boi coiceia e, dando volta, se entrevera
E lá de quando em vez um peão da culatra abre o peito e dá um sapucay pra chamar a atenção do ponteiro. Aqui confirma que o sapucay não é só um grito de festa, mas sim uma forma de comunicação. Deve ter avisado que alguma coisa aconteceu, alguma rês fugiu e aí um deles vai lá e atropela ela, pra colocar de volta. E aí conta que o cusco percebe que as coisas saíram do controle e dá uma mordida no garrão do boi, que coiceia e já causa aquele entrevero.
Tranqueia o gado farejando um aguaceiro
Que vem se armando lá prás banda oriental
Abrem-se ponchos na culatra e lá na ponta
E o vento afronta mareteando o pastiçal
Aqui mostra que o tempo tá mudando, a gadaria vai no tranco e se percebe que vem nuvens carregadas da banda oriental. Então a peonada saca os ponchos, que estavam emalados nos arreios e vestem eles. Enquanto isso, se nota o vento mareteando o pastiçal, ou seja, vem fazendo marretas, ondas nas folhagens do pasto.
Troveja longe e o raio plancha na terra
E a manga d’água já branqueia o corredor
Encharca o poncho e a alma de quem tropeia
Se o tempo enfeia pros lados do chovedor
E a tropa encontra a chuva, raios e trovões e a água forte chega a tirar a visão dos tropeiros, chega a branquear o corredor. E se o tempo enfeiar pros lados do chovedor vai encharcar o poncho e até a alma de quem tá tropeando. E pra situar, o corredor é uma estrada dessas de interior, que tem alambrados, taipas ou cercas em ambos os lados da via.
Não vejo a hora de findar esta jornada
E voltar pro rancho que ergui no meu lugar
Já imagino a minha linda na janela
Sonhei com ela e pra ela vou voltar
E esse ultimo verso é o desabafo do tropeiro, que tá cansado da estrada, tá cheio de saudades, já chegou até a sonhar com a prenda amada, quer logo entregar a tropa e voltar pro seu pago, pro seu rancho, pra onde mora o seu coração.
É uma baita marca essa, né?! No rastro da gadaria! Uma música que fala de uma lida campeira, de uma tropeada de gado, mostra que pra ser tropeiro tem que ter fibra, coragem, sabedoria. Tem que conhecer dos bichos, da geografia e até de meteorologia. Mas no final, tudo só vale a pena se tiver pra onde voltar.