Por varias vezes, notei em continuas e estafantes viagens pelos recantos mais afastados do Rio Grande um facto que pela sua extranha singularidade me preoccupara vivamente a attenção: carreteiros e maioraes de diligencia, tomados de um terror supersticioso evitavam, sempre, fazer o seu fogo no mesmo logar que tivesse signaes de um fogão anterior. De sorte que á beira dos capões e restingas, sitios apropriados e preferidos pelos viandantes da campanha para assentas e pousos, depois de longas marchas por estradas accidentadas, era commum encontrarem-se um sem numero de fogões extinctos, sem que um só, jámais, fosse feito no logar que tivesse vestigio de outro.
Tomado de natural curiosidade inquiri, de uma feita, sobre o caso o peão que me conduzia caminho da Soledade, justamente na occasião em que elle iniciava o fogo para o chimarrão apetecido.
— Qual o motivo, amigo, desse exquisito escrupulo?…
A’ minha pergunta, o gaúcho encarou-me com escarninho sorriso.
— Ué gente!… Então o patrãosinho não sabe? Chama-se a historia do fogo-morto, muito conhecida por este e outros pagos…
Accocorado depois na relva, sob a ramagem de um salso, contou-me então, a lenda do que dou aqui em desfigurado resumo, um apanhado fiel, respeitando a tocante singeleza do seu entrecho e a rustica simplicidade do seu estylo.
E o gaúcho começou:
Pois foi uma vez, ha muito tempo, lá pr’as bandas da fronteira, um caminho de Alegrete para Quarahy. Um carreteiro rico, muito rico, que tinha de seu além de campo e dinheiro, mais de cem juntas de bois invernados foi fazer uma viagem longe, muito longe do rincão da querencia. Depois de ter andado quasi o dia todo resolveu, á tardinha, já mesmo no momento em que o sol entrava, fazer pouso no costado de uma restinga, perto da estrada geral.
Tocou para lá a carreta com auxilio do peãosinho que levava desajojou os bois, soltando-os para o campo. Em seguida mandou trazer lenha do matto para preparar o fogo afim de assar o churrasco e requentar a panella de feijão com xarque. Ao lado, quasi junto da carreta, encontrou os vestigios do fogão de algum carreteiro que ali tambem pousára ou sesteara na vespera. Com isso se livrou o homem do trabalho mais longo. Aproveitou a lenha e os gravetos que se conservavam ainda accezos, entre a cinza, e, ao mesmo logar, em cima do outro fogo, iniciou o seu que logo vingou em grossas labaredas ao lado da carreta.
— Mas para que se meteu o carreteiro em aproveitar o alheio?…
A desgraça começou n’aquella hora!…
— As labaredas cresceram em linguas de fogo; as linguas de fogo começaram a lamber a carreta; a carreta ardia em chammas; as chammas subiam cada vez mais devorando tudo. O peãosinho e o carreteiro corriam que nem veado, para o arroio, trazendo agua e atirando no fogo. Mas este crescia mais violento ainda, sem que toda a agua do arroio désse para apagal-o. Só quando o arroio seccou foi que o fogo tambem se extinguiu, depois de ter reduzido sua presa a um grande monte de cinzas. O rico carreteiro sahiu como louco, campo fóra. A desgraça, porém, não parou nisso: desde esse dia malfadado, os bois começaram a pestear e a morrer; o dinheiro desappareceu da casa, roubado; a mulher sumiu-se sem que até hoje se saiba novas de seu paradeiro. E o homem que fôra rico, muito rico, morreu pobre, muito pobre, perseguido á hora da agonia por apavorantes visões transformadas em linguas de fogo, lambendo-lhe o corpo todo.
Dizem os antigos que desde esse dia em então, todos os carreteiros que tiveram noticia do triste facto acontecido nunca mais fizeram fogo no logar em que foi o fogão de outro…
Extraído do livro: TERRA GAÚCHA – Scenas da vida Rio-Grandense, de Roque Callage (1921).