O Rio Uruguai é um dos principais rios da hidrografia do Rio Grande do Sul, praticamente toda a fronteira do norte e oeste gaúcha é dada pela sua geografia. Tem cerca de 1.800 km de extensão e deságua no Rio da Prata, na cidade de Nueva Palmira no Uruguai.

Este rio banha o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Argentina e Uruguai. No seu percurso tem diversas barragens para a produção de energia elétrica.

Devido a sua imponência e extensão ele faz parte da vida de muitos gaúchos, catarinenses, argentinos e uruguaios. Inúmeras lendas, histórias, causos de pescador, poemas e músicas brotaram de suas águas e ecoaram por suas margens.

E aí a gente pode citar músicas muito famosas como Balseiros do Rio Uruguai, Baile do Sapucay, Rio Uruguai, Guri Canoeiro, Lavadeira do Uruguai, Canto do Entardecer, Costeiro, Lembranças… tem até o Festival da Barranca. Clique aqui e ouça uma playlist especial sobre músicas sobre o Rio Uruguai.

Segundo o pesquisador Eduardo Navarro, o termo “Uruguai” é proveniente do guarani antigo: significa “rio dos uruguás”, pela junção de uruguá (uruguá, um tipo de caracol de água doce) e ‘y (rio).

Eu sempre costumo cruzar o Rio Uruguai, pra ser mais exato na ponte do Barracão, que faz a divisa entre o Rio Grande e Santa Catarina. E desde muito novo escuto dizer que é ali que se forma o Rio Uruguai. De cima da ponte no sentido RS-SC, se olharmos a direita, vamos ver o Rio Pelotas e o Rio Canoas se encontrando, marcando ali o início do Rio Uruguai.

Então esses dias eu tava cruzando por ali e fiz esse vídeo e publiquei nas redes sociais do Linha Campeira.

Mas aí… Muita gente comentou que a verdadeira nascente do Rio Uruguai é cerca de 80km mais adiante, na cidade de Marcelino Ramos, onde o Rio do Peixe se encontra com o Rio Pelotas, embaixo da ponte de ferro, e aí sim vira o Rio Uruguai.

E o que causa essa dubiedade é que o Rio Uruguai não tem uma nascente, um ponto de onde a água brota do chão. O Rio Uruguai é um rio que se forma, troca de nome quando recebe as águas de outros dois rios.

Devido a isso se tem essa discussão a respeito do tema. Aí como vi que esse era um assunto que envolvia muita coisa e os dois pontos tidos como marco zero do Rio são discussões antigas, resolvi ir mais a fundo nas buscas.

Procurei em diversos mapas, atuais e antigos, comparei informações de sites de diferentes cidades e até de publicações acadêmicas pra ver se encontrava a resposta.

Em Marcelino Ramos há um médico e pesquisador local, o Sr. Wilmar Wilfrid Rübenich que traz bastante pesquisas e relatos de moradores antigos, daqueles que construíram a ponte e a linha férrea que afirmam que o Rio Uruguai se forma ali na cidade, onde as águas do Rio do Peixe se encontravam com as do Rio Pelotas. Pra gente ter ideia, essa ponte foi construída no início dos anos 1900.

E recentemente eu estive assistindo uma palestra da Sra Enedy Padilha, na Festa dos Tropeiros, em Campos Novos, onde ela apresentou uma carta datada de 06 de Janeiro de 1767 onde o Coronel José Custódio de Sá e Faria, da Capitania de São Pedro do Rio Grande discutia quais eram os limites entre a sua capitania e a vizinha, Capitania de São Paulo, cujo o donatário era Luiz Antônio de Souza Botelho e Mourão, conhecido como Morgado de Mateus.

E nessa carta está colocado que a divisa entre as duas capitanias seria: “Do Rio das Canoas afluente do Rio Pelotas e, dali para baixo, o Rio Uruguai.“

Mas o que mudou o jogo foi quando assisti a uma palestra que está disponível na página do Facebook do Museu de Astronomia e Ciências Afins, da Professora Ana Cristina Resende, que é Gerente de Nomes Geográficos, da Coordenação de Cartografia da Diretoria de Geociências do IBGE que tem como título: “Encontro dos rios Canoas e Pelotas como nascente do rio Uruguai: uma questão toponímica”.

E nessa palestra ela apresenta o estudo que realizou nas cidades costeiras que são banhadas pelo Rio Uruguai. Desde Marcelino Ramos até Barracão. Onde entrevistou muita gente, de diversas idades, pesquisou nos registros de limites municipais das prefeituras e encontrou muitas dubiedades.

Algumas prefeituras apresentavam como Rio Pelotas e outras como Rio Uruguai, tanto no lado do Rio Grande do Sul quanto Santa Catarina. O mesmo aconteceu nas entrevistas.

Só que isso não me esclareceu as ideias, ainda fiquei com muitas dúvidas e por ser metido, resolvi entrar em contato com o IBGE pra tirar a limpo essa dúvida.

E pra minha grata surpresa quem me retornou foi justamente a Professora Ana Cristina Resende e me atendeu de prontidão, sendo muito cordial e explicativa. Por mais de 1h ela me apresentou os estudos e conversamos a respeito dessa questão.

E a resposta do IBGE é a seguinte: As duas estão corretas. Isso mesmo!

Então deixa eu te explicar certinho. Tanto Marcelino Ramos como Barracão podem afirmar que o Rio Uruguai se forma ali. E o trecho que vai do encontro do Rio Pelotas como Rio Canoas até o Rio do Peixe é denominado “Rio Pelotas / Rio Uruguai

Mas como explicar isso? Na ONU, há uma comissão especial chamada UNGEGN, que traduzindo seria Grupo das Nações Unidas de Especialistas em Nomes Geográficos, formado por diversos pesquisadores que lidam com a padronização nacional e internacional de nomes geográficos.

E para dar nome a um rio ou a uma divisa é levado em conta os aspectos culturais. Então em casos como esse se justifica que esse trecho do rio receba os dois nomes para que sejam atendidas as diferentes tradições no uso do nome geográfico.

Tanto que na cartografia brasileira atual irá aparecer como: Rio Pelotas / Rio Uruguai esse trecho de cerca de 80 km.

Mas agora tu deve estar se perguntando onde que é a nascente histórica? Onde que é o primeiro registro de Rio Uruguai nos mapas?

Pra isso também temos a resposta… o primeiro registro vem do ano de 1745, onde o Padre espanhol Pedro Lozano, cronista da Companhia de Jesus, faz a seguinte observação sobre a nascente do Rio Uruguai: “Nasce com pouco caudal e se divide em dois braços, dos quais o mais ao Sul chamam de Uruguay Mini e ao Norte de Uruguay Guazú, os quais recebem muitos arroios e desde ali se torna muito caudaloso.”

Já o primeiro mapa que foi encontrado é o Mapa das divisas das coroas da Espanha e Portugal na América Meridional, data entre 1751 e 1760, onde aparece os nomes dos rios: Uruguai Guazú e Uruguai Mini.

Agora tem outro mapa que ajuda mais ainda a gente entender quais rios são esses. Do ano de 1740, de autoria de Diogo Soares, grande matemático e cartógrafo português que veio ao Brasil com o fim de traçar o Novo Atlas do Brasil, por meio de latitudes e longitudes observadas.

Nesse mapa ele apresenta pela primeira vez o nome “Rio das Canoas” se referindo ao Rio Canoas e pro Sul aparece Uruguai Mini. Ou seja, o Rio Uruguai Guazu é o Rio Canoas.

Mas e qual seria o Rio Uruguai Mini? Tem outro mapa de 1749 feito pelo Padre Jose Quiroga, da Companhia de Jesus, das bacias dos rios Paraná e Uruguai. Que eram as bacias onde haviam as missões jesuíticas.

Neste mapa aparece a maioria dos rios com os nomes indígenas, detalhando o Alto Uruguai e vários afluentes. E ali mostram alguns caminhos de tropas que os portugueses abriram e aí é que aparece novamente o Rio Uruguai Mini, exatamente onde é o Rio Pelotas.

Então o Rio Uruguai Guazu é o Rio Canoas e o Rio Uruguai Mini é o Rio Pelotas. Por isso então, podemos afirmar que a nascente histórica do Rio Uruguai é no encontro das águas do Rio Pelotas com o Rio Canoas, próximo a Ponte do Barracão.

Queria novamente agradecer a Professora Ana Cristina por ter compartilhado a sua pesquisa conosco e por ter sido tão atenciosa desde o primeiro contato até a data de gravação deste vídeo. E aproveitar pra complementar que, segundo ela, há planos de prosseguir nos estudos para determinar/esclarecer como surgiu a história do “marco zero” ser apontado como encontro com as águas do Rio do Peixe, por que isso será de grande valia cultural para a história do Rio Uruguai.

Comentários
  1. Porque Barracão é Marcelino Ramos e não fala isonomicamente que se forma tambem na divisa com Celso Ramos/SC e Ipira/SC, pois embora faça fronteira e divisa do RS, suas águas iniciais são majoritariamente catarinenses. E mais, humildemente sei que municipios têm limites, estados divisas e países fazem fronteira entre si.

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