Guri é uma milonga de composição dos irmãos João Batista Machado e Julio Machado Da Silva Filho e foi escrita na volta do ano de 1983. E originalmente, ela tinha o título original de Sonho do Guri.

Apareceu pela primeira vez na 13ª Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, foi interpretada magicamente pelo Cesar Passarinho e, com todos os méritos, conquistou a Calhandra de Ouro e está imortalizada como um dos maiores clássicos das Califórnias e da música gaúcha.

Ah… e uma curiosidade é que o Julio Machado venceu a primeira Califórnia da Canção Nativa, em 1971, com a música Reflexão, na parceria com o Colmar Duarte.

Tem uma curiosidade do por que o Cesar Passarinho ter sido o cantor. A primeira ideia era pro Neto Fagundes cantar, pois na época o Cesar Passarinho estava longe dos palcos cuidando de sua saúde. 

Só que no regulamento do festival, dizia que cada cantor só podia interpretar 2 músicas e o Neto tinha classificado 2 como intérprete, só que ainda assim poderia subir ao palco como instrumentista.

Então ele chamou um gaiteiro novo, gadeiudo que usava um chapéu caído no rosto um tal de Borghetinho e tava feito a dupla, só faltava a voz.

Então o Neto e o Borghetti convenceram o Cesar Passarinho de retornar ao palco pra cantar essa música que era de autoria de seus amigos. Inclusive, na época o Passarinho estava morando com o Julio Machado.

Em entrevista, o Julio contou que um dia chegou em casa e tinha uma fita K7 sobre a cama dele onde estava escrito: Meu irmão, um presente pra ti. Era o Cesar Passarinho cantarolando Guri pela primeira vez.

Essa música está hoje em quase todas as coletâneas de música gaúcha, foi gravada por diversos artistas como Gaúcho da Fronteira, Joca Martins, Dante Ramon Ledesma, Os Serranos e tantos outros.

A letra dessa música é de uma simplicidade e pureza sem igual. Tal como um guri sonhando. Vamos aos detalhes.

Das roupas velhas do pai, queria que a mãe fizesse
Uma mala de garupa, uma bombacha e me desse.
Queria boinas, alpargatas e um cachorro companheiro
Pra me ajudar a botar as vacas no meu petiço sogueiro

O verso começa com o guri imaginando as coisas que ele queria ter. Uma mala de garupa, as pilchas, o cachorro, o cavalo… Pra que ele possa sair pro campo pra camperear.

Petiço é um cavalo mais baixo que o padrão da raça. Sogueiro não é um cavalo que é guasqueiro. Sogueiro é o cavalo que fica na soga. Que fica atado na volta das casa pra fazer as lidas diarias. É aquele cavalo das confiança que tá sempre meio pronto pra qualquer coisa.

No caso do guri, ele quer pra botar as vacas. Pra recolher as vacas de um campo pra outro.

Hei de ter uma tabuada e o meu livro, “Queres Ler?”
Vou aprender a fazer contas e algum bilhete escrever
Pra que a filha do seu Bento saiba que é ela meu bem querer
E se não for por escrito eu não me animo a dizer

Por muito tempo eu não entendia o verso, achando que estava mal conjugado apenas pra dar a rima certa. Agora, comenta aí quando foi que tu descobriu que Queres Ler é um livro de alfabetização? Originalmente muito famoso no Uruguai e depois a partir de 1924 ficou muito popular no Brasil e ajudou muita gente aprender a ler.

Uma outra curiosidade é que a filha do seu Bento. Originalmente era pra ser: Pra que a Maricota saiba que ela é meu bem querer. Só que não tava soando bem isso. Então o Julio Machado, resolveu trocar por filha do seu Bento. Mas o único Bento que os irmãos compositores conheciam era um carteiro que nem filha tinha.

Quero gaita de oito baixos pra ver o ronco que sai
Botas feitio do Alegrete e esporas do Ibirocaí
Lenço vermelho e guaiaca comprada lá no Uruguai
Pra que digam quando eu passe: – Saiu igualzito ao pai!

Numa entrevista o Julio Machado resume bem isso: não há filho que não queira ser igual ao pai, e não há pai que não queira que o filho assim seja. E pra mim, isso faz todo o sentido agora.

O guri da música se espelha em seu pai. Vê ele com a gaita nos braços. Deve ter ouvido dizer que as melhores botas são feitas no Alegrete e que as esporas tem que ser do Ibirocai, onde tinha uma família que produzia as melhores peças. O lenço vermelho atado no pescoço e a guaiaca uruguaia, tal como o pai dele se pilchava.

E se Deus não achar muito tanta coisa que eu pedi
Não deixe que eu me separe deste rancho onde nasci
Nem me desperte tão cedo do meu sonho de guri
E de lambuja permita que eu nunca saia daqui

Neste verso a gente tem mais uma demonstração clara de alguns valores do gaúcho. Humildade, simplicidade e amor pelo seu chão.

Segundo o autor esse é o verso mais importante da letra, pois mantém aceso o espírito de criança dentro de cada um de nós. Que a gente nunca saia desse estágio de guri, de criança sonhadora de 8 anos de idade.

E bem como disse o César Passarinho confessou aos autores: Nosso Guri é mágico. Uma música que transcende os tempos, simples e profunda. Que faz a gente se identificar já nos primeiros acordes que ali tem uma mensagem de vida, do sonho de um guri como eu sonhei e tu também já sonhou.

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