Este rico chamamé tem os versos de Gujo Teixeira e melodia do Luiz Marenco. E aqui eu quero deixar o meu fraterno agradecimento ao pai da obra, o Gujo Teixeira, que me confirmou os fatos e detalhes deste tema. Mil gracias pela parceria, Gujo!

Então, ela foi escrita no dia 16 de agosto de 1995. E como que sei disso? Há algum tempo o Gujo publicou em suas redes sociais uma foto onde tem a letra escrita à mão e ainda com uma anotação da mudança de um trecho. 

Foi interpretada na 9ª Tafona da Canção Nativa de Osório, no ano de 1997. Por Luiz Marenco e Jari Terres. E com todo o mérito, levou os prêmios de 1º Lugar no festival e de Melhor Tema Campeiro. Também ao final do mesmo ano, recebeu o Troféu Vitória como Melhor Música Regional do ano.

No ano de 1999, foi reunida com outras preciosidades em um CD, onde todas as letras são do Gujo Teixeira e as músicas do Marenco, de nome Quando o verso vem pras casa. E diga-se de passagem que é um dos melhores CDs do nosso nativismo.

E a partir daí, nunca mais parou de ser tocada e cantada por esses pagos gaúchos. E em 2009, ganhou a Tafona das Tafonas. Uma edição comemorativa em homenagem aos 20 anos do festival.

Quando o verso vem pras casa é uma música que está em diversas coletâneas de música nativa e não pode faltar na tua playlist campeira do Spotify. Além de ter sido gravada por muitos artistas e é pedido certo pros parceiros que são músicos nos encontros da gauchada.

E essa letra é poesia pura, tanto que o campeiro, o protagonista da poesia é referido como verso. A profundidade destes versos pra mostrar as coisas simples do dia-a-dia é algo sem igual, por isso que essa música é um clássico.

Mas então agora, bamo pra parte da explicação das palavras e termos da música. Só que desta feita, eu vou fazer diferente. Poesia é sentimento e entende quem pode. Por isso, vou explicar o significado de algumas palavras, mas como tu vai perceber, dentro do contexto elas vão significar outras coisas.

A calma do tarumã, ganhou sombra mais copada
Pela várzea espichada com o sol da tarde caindo
Um pañuelo maragato se abriu no horizonte
Trazendo um novo reponte, prá um fim-de-tarde bem lindo

Tarumã é uma árvore, bem bonita. Que dá uma flor meio roxa e umas baguinha que mancham a roupa uma reviria. 

Pañuelo é lenço em espanhol. Maragato é uma referência à cor vermelha. O pañuelo maragato é o entardecer, quando o céu tem aquela barra vermelha. 

Reponte é o movimento, de aparecer lentamente.

Daí um verso de campo se chegou da campereada
No lombo de uma gateada frente aberta de respeito
Desencilhou na ramada, já cansado das lonjuras
Mas estampando a figura, campeira, bem do seu jeito

Campereada são as lidas do dia.

Gateada frente aberta é uma égua com pelagem gateada e com o detalhe em branco na cabeça. 

Ramada é tal qual um puxadinho coberto de ramos, galhos ou capim que dá uma sombra bem buena na volta do rancho, onde a peonada desencilha e se abriga do sol. 

Lonjuras são as estradas, os caminhos, as distâncias.

Cevou um mate pura-folha, jujado de maçanilha
E um ventito da coxilha trouxe coplas entre as asas
Prá querência galponeira, onde o verso é mais caseiro
Templado a luz de candeeiro e um “quarto gordo nas brasa”

Jujar o mate é colocar alguns chazinhos nele. Pra dar um sabor diferente. Nesse caso, a maçanilha, que é a camomila. 

Vento trouxe coplas, ou seja versos.

Candieiro é uma lamparina antiga a óleo. 

Quarto gordo nas brasa é o jantar, um assado. Do quarto, o pernil da ovelha. 

A mansidão da campanha traz saudade feito açoite
Com olhos negros de noite que ela mesma querenciou
E o verso que tinha sonhos prá rondar na madrugada
Deixou a cancela encostada e a tropa se desgarrou

Campanha é o interior gaúcho.

Rondar é vigiar, cuidar.

Cancela é a porteira da propriedade. 

Desgarrar a tropa é deixar a tropa de gado escapar, se dispersar. 

E o verso sonhou ser várzea com sombra de tarumã
Ser um galo prás manhãs, ou um gateado prá encilha
Sonhou com os olhos da prenda vestidos de primavera
Adormecidos na espera do sol pontear na coxilha

Varzea é a parte plana. O tarumã é a árvore que já falamos.

Gateado é o cavalo. Prenda é a mulher amada.

Sol pontear na coxilha, ou seja, o Sol sair atrás do morro, o amanhecer. 

Ficaram arreios suados e o silêncio de esporas
Um cerne com cor de aurora queimando em fogo de chão
Uma cuia e uma bomba recostada na cambona
E uma saudade redomona pelos cantos do galpão

Cerne é a parte mais dura da árvore, que demora mais pra queimar. 

Cambona é uma chaleira rustica, feita de lata e e com alça de arame. Típica dos tropeiros.

Redomona é aquela égua que está se amansando. Logo a saudade redomona é aquela que ainda dá trabalho pro peão. 

Essa música retrata o peão de campo voltando pro rancho cansado depois da campereada. Desencilha o pingo, faz o mate e coloca uma carne pra assar.

E nesse momento de solidão, o peão acaba adormecendo e sonhando com as coisas que sempre quis. No rancho ficaram os arreios, o fogo ainda queimando, o mate já lavado e a saudade constante.

O jeito com que o Gujo escreveu estes versos é de uma sensibilidade e autenticidade que só os grandes poetas conseguem.

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