Possivelmente tu já deve ter ouvido essa marca nas vozes do Porca Véia ou do Baitaca. Mas ela não é de autoria de nenhum destes artistas, o autor da letra e compositor da melodia é o Joserley Mendonça Portela, conhecido como Palito Portela.

Foi gravada pelo Baitaca em 2010, no CD Estampa de Galpão, pelo Crioulo dos Pampas em 2015 no CD Mateando Saudade e pelo Porca Véia em 2015 no CD No Estilo Porca Véia.

Antes de eu te contar a letra em detalhes, vale esclarecer o título da música. Castração a pealo. Castração a pealo é derrubar touro e levantar boi.

Castrar é o ato de remover os bago dos animais destinados a corte, produção de carne, com a finalidade de ganho na qualidade do produto. É uma técnica utilizada há milênios.

E o termo a pealo é devido a forma que os animais são imobilizados pra fazer o serviço. Sendo pealados ou seja, o animal é laçado pelas patas dianteiras, ou como se chama no interior, pelas mãos.

E aí na hora que o laço trava, é aquele tombo, ou melhor aquele pealo. Pois o animal cai com a cara no chão. 

Quando o pealo é bem dado, o laço fica preso as patas dianteiras do animal e o campeiro firma o laço pra que os outros façam o serviço. Um prende o pescoço e o outro a parte traseira.

Aí vem o castrador com o canivete, faz dois cortes, saca os bago fora e sela o destino como boi. Mas então agora que já sabemos como que é essa lida de castração a pealo, bamo pra explicação da letra.

Levantando poeira o sinuelo berra / Batendo cincerros sobre o pastoreio
Refuga o mestiço e vem golpeando o laço / Cincha o meu picaço atirando o freio

O sinuelo é aquele boi mais manso que serve pra guiar os demais. Cincerro é aquele sininho que fica pendurado ao pescoço dos animais. Cincha é do verbo cinchar, que é conduzir um outro animal pelo laço preso sua cincha.

Cevei o meu mate bem de madrugada / Comecei a lida no clarear do dia
Num fundão de campo a gritar com a boiada / Pra vir pra mangueira numa manhã fria

Geralmente esse tipo de lida é de estrela a estrela. Começa no clarear do dia e vai até o anoitecer. Então o campeiro tem que levantar cedo pra buscar a boiada na invernada e trazer pra mangueira pra fechar.

Turuno brasino arisco e ligeiro / Atiro os pucheiros no meu cusco amigo
Garroteando a tropa no berro e no coice/ Arrojado e valente a camperear comigo

Turuno é o boi mal castrado que ainda tem as balda de touro. Brasino é referente ao pelo dele, meio avermelhado, em brasas.

Cusco amigo é o cachorro que vai garroteando, ou seja nos garrão das reses da tropa.

Quem tem fé no braço armada pachucheira / Retumba o guasqueaço sobre o tirador
Já cai acarcado ao centro da mangueira / Pronto pra peixeira do peão castrador

Então aqui o gado já tá na mangueira, e o peão do brete vai soltando um a um, aí a gauchada fica com as armadas prontas pra atirar o laço pra pegar as patas dianteiras, aí quando a armada acerta, dá o laço estica e dá um guasqueaço no tirador, que é utilizado pra que o laço não corra sob a perna do campeiro.

Aí, pela ultima vez na vida que o bicho cai touro. Logo vem o peão castrador e faz virar boi com a faca castradeira. Duas incisões, uma cada lado e tira os bago de dentro.

Ao cair a tarde agarrei a cordeona / E fiz a chorona ecoar no espaço
Depois encilhei uma égua alazona / Me fui pra mangueira dar um tiro de laço

Cordeona e chorona são sinominos pra gaita. Égua alazona é uma égua de pelagem tostada.

Levantei o braço e mandei o trançado / Pialei um zebu que já tombou berrando
Em poucos segundos levantou castrado / Rebatendo o chifre saiu tropicando

Mandar o trançado é soltar o laço. Zebu é uma raça de gado, esses cupinudo. 

A cachaça na guampa reluz a memória / Vai ficar na história o que eu fiz aqui
Me disse o patrão, faça pra mim agora \ Um verso pra estância Itacurubi

Guampa de canha, um chifre pra guardar cachaça. Itacurubi é uma cidade da região das missões que fica perto do São Luiz Gonzaga, Santiago e São Borja

Se de mão-em-mão a canha vai e vem \ Os bagos na cinza é só bater o tição
Castração a pialo outra igual não tem \ Este é o ritual aqui do meu rincão

Como bem sabemos, é uma beiçada na canha e passa pro parceiro. 

Bago de touro na brasa é uma baita iguaria campeira, impossível uma castração não ter isso. Tu simplesmente joga os bago direto na brasa e depois que tá na cor é só bater os tição e servir.

Igual a isso não tem, é um verdadeiro ritual! É uma atividade que é praticamente o dia inteiro de serviço. Geralmente junto a castração é feito a marcação do gado e também é aproveitado pra vacinar ou fazer alguma outra lida. Já que vai estressar o animal, faz tudo de uma só vez.

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