Recuerdos da 28 é uma daquelas marca que todo mundo canta. Mas ela tem uma baita história por trás que muita gente desconhece. Se empolga no ritmo da música e não presta muito atenção aos detalhes da letra. Que são inspirados em fatos reais e as pessoas ali citadas na música eram da sociedade de Uruguaiana.

Essa música apareceu pela primeira vez na 10ª California da Canção Nativa de Uruguaiana no ano de 1980. Ela foi composta por Kenelmo e Francisco Alves, que eram pai e filho. Foi interpretada nesse festival por Juarez Brasil e Grupo Os Gaudérios. No disco daquela California é a música 3 do lado A. 

Outro fato curioso sobre a música é que ela ganhou o prêmio de melhor arranjo. E o Francisco Alves contou que fez a introdução e os solos da música com um violão de cordas de aço que estava ligeiramente desafinadas. Pra dar a sensação de bagunça, baderna. E também temos que lembrar que o Kenelmo Alves faz aquele famoso solo da música com um pente com papel.

Recuerdos da 28 tem uma melodia e uma letra com tiradas que são inconfundíveis. De imediato nos primeiros acordes ou nalguma referência a um verso a gente já sabe do que se trata.

Então agora bamo dar uma analisada na letra pra entender melhor o contexto de onde se passa essa baita história.

De vereda já carece explicar o nome. Recuerdos da 28. Lembranças das Rua 28 de Setembro. Hoje o nome dessa rua é Rua Doutor Maia. É importante destacar que nessa rua antigamente lá em Uruguaiana era aquela rua onde a boemia imperava, nas não eram bares e restaurantes. Era uma rua com vários bordeis, cabarés, zonas instalados e é num desses que acontece a história da música.

De vez em quando quando boto a mão nos cobre
Não existe china pobre, nem garçom de cara feia
Eu sou de longe, onde chove e não goteia
Não tenho medo de potro, nem macho que compadreia

Botar a mão nos cobre é receber dinheiro. Então quando tu tá com os pila na guaiaca se larga pra gandaia, no caso da música aqui o peão se largava pra zona. Lá não tinha china pobre e nem garçom de cara feia por que ele estava esbanjando dinheiro e gastando bem.

E ainda conta que o vivente é corajoso, pq não tem medo de potro, de cavalo não domado e nem de macho que compadreia ou seja de quem fica se gavando, se achando o bonzão.

Boleio a perna e vou direto pro retoço
Quanto mais quente o alvoroço, muito mais me sinto afoito
E o chinaredo, que de muito me conhece
Sabe que pedindo desce, meu facão na 28

Bolear a perna é apeiar do cavalo. E o peão da história já conta que gosta é de um bochincho grosso, pra ele quanto mais bagunçado, melhor. Também demonstra que é frequentador assíduo do local e o povo de lá já conhece a fama dele.

Remancheio no boteco ali nos trilhos
Enquanto no bebedouro mato a sede do tordilho,
Ouço o mugido, o barulho da cordeona
E a velha porca rabona retoçando no salão,
Quem nunca falta é um índio curto e grosso
De apelido de pescoço, da rabona o querendão.

Remanchear no boteco é dar uma aguardada, dar um tempo, uma esperada.

Aqui é interessante que tem umas informações interessantes sobre a antiga Uruguaiana.

Os trilhos é uma referência aos trilhos da Viação Férrea. E ali na 28 havia um bebedouro que era pra matar a sede dos animais, pois na época se viajava muito pra cidade a cavalo. E como a estrada não era tão curta, os animais chegavam com sede.

E dali já se ouvia o barulho do bochincho lá dentro do cabaré. Aí cita a Porca Rabona que retoçava no salão. Retoçar é se exibir, provocar, brincar.

E agora temos que contar que essa tal da Porca Rabona é uma personagem real. Seu nome era Ernestina Gomes popularmente conhecida como Porca Rabona. Ela tinha um cabaré ali na 28 um dos menos chiques do lugar, mas não menos famoso.

Vale destacar o termo rabona que é uma referência a animais ou objetos que tem o rabo curto, cortado. Uma faca rabona pode ser uma faca com um cabo curto, por exemplo.

E a dona Ernestina havia recebido a alcunha de rabona uma vez que havia participado de uma briga e levou uma facada bem na bunda e aí ficou uma cicatriz.

Tem um texto do Roger Baigorra Machado que eu usei como referência onde ele traz muitas informações a respeito. Para conferir, clique aqui.

Em seguida é apresentado um outro personagem que esse teve uma baita história depois que a música foi publicada. No verso fala:

O que nunca falta é um índio curto e grosso, de apelo Pescoço. Da Rabona, o querendão.

Ou seja, o Kenelmo Alves conta que um tal de Pescoço era o querendão, o preferido, o amante da Rabona. O nome de Batismo do Pescoço era Mário Castro e esse peão já foi domador, capataz,  alambrador, esquilador e mais um eito de profissão campeira. 

E essa historia do Pescoço com a Porca Rabona eu vou terminar ela no fim desse vídeo.

Entro na sala no meio da confusão
Entro meio atarantado que nem cusco em procissão
Quase sempre chego assim meio com sede,
Quebro o meu chapéu na testa de beijar santo em parede.
E num relance se eu não vejo alguém de farda eu grito:
– Me serve um liso daquela que matou o guarda.

O vivente entre no salão e fica Atarantado que nem cusco em procissão ou seja, perdido, confuso com aquela gentarada toda.

Quebrar o chapéu de beijar santo em parede, um chapeuzão bem tapeado quase reto pra cima, que dá pra beijar o santo na parede sem dificuldades.

E essa expressão: Me serve um liso daquela que matou o guarda é loca de buena.

Eu até já publiquei ela nos shorts e pra tu ver, vou deixar ela linkada aqui no card e também nos comentários.

Guardo o trabuco empanturrado de bala, meu facão,
Chapéu e pala e com licença vou dançar,
Nesses fandango levo a guaiaca recheada
Danço com a melhor china, que me importa de pagar,
O meu cavalo eu deixo atado num palanque
E só não quero que ele manque quando terminar a farra.

Olha que interessante… por mais que seja numa zona que acontece essa história, ainda se tem alguns respeitos como por exemplo não dançar com as arma e nem de chapéu. Pois ele guarda na entrada o trabuco, o facão, o chapéu e o pala.

A guaiaca recheada é pra dizer que tá com o dinheiro no bolso. O cavalo fica sempre atado fora no palanque e não pode mancar na volta. Ou seja, tem que torcer pra que o seu cavalo esteja inteiro na hora de ir pra casa.

A milicada sempre vem fora de hora,
Mas eu saio porta a fora só quero ver quem me agarra.
Desde piazito a polícia não espero
Se estoura rebordoza me tapo de quero-quero,
Desde piazito a polícia eu não espero
Se estoura a rebordoza me tapo de quero-quero. 

 E como de praxe, já se sabe que nesses cabaré quase sempre, sem hora, se batia a polícia pra dar aquela revista. Aquela batida.

E como esse vivente não tinha amigos na polícia, acabava fugindo a mil. E reboldosa significa alvoroço, desordem, confusão. E quando acontece ele se tapa de quero-quero ou seja, sai campo porta a fora correndo e se esquivando.

E conforme o prometido, deixa eu terminar a história do Pescoço com a Porca Rabona. Diz que logo depois que a música Recuerdos da 28 foi apresentada e posteriormente gravada no disco da California. O nome do Pescoço voltou a ser famoso na cidade.

Certa feita, toca a campainha da casa do Francisco Alves e ao abrir a porta uma figura se dirige a ele dizendo: 

– O senhor é um dos home, da Recuerdo da 28?

Diz que o Francisco respondeu. 

– Eu não! O senhor que é o homem da Recuerdos da 28.

Era o Mario, o Pescoço que tinha ido pra esclarecer algumas coisas, pois havia uns boatos de que os familiares dele estavam querendo processar os autores da música. Aí ele desabafou:

– Pois é, queria conhecer os home que fizeram a tal de música. Depois que saiu essa música, tenho me incomodado um pouco; não é que tive que comprar alguns discos, para dar de presente e com autógrafo e tudo!”

Só que o Mário disse que não queria processar, por que de fato, aquilo era tudo verdade.

No ano de 1946 assumiu como capataz de uma estância e levou junto a Porca Rabona, que largou o cabaré e a vida mundana pra viver com seu Querendão. Que falaceu aos 82 anos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.