Balseiros do Rio Uruguai é um chamamé de composição do Barbosa Lessa. Foi gravado pela primeira vez pelo Noel Guarany no álbum Sem Fronteira em 1975, é a 4ª música do lado A. Depois o Cenair Maicá também gravou no álbum Rio de minha infância em 1978 e nesse LP é a 3ª musica do lado B.

Acredita-se que o Barbosa Lessa tenha escrito essa música na volta dos anos 50-60, quando ele foi visitar a região de Chapecó e Goio-en. Então ele chegou pela margem gaúcha e atravessou de barca o Rio Uruguai até a banda catarinense. 

Bom lembrar que a barca é aquela puxada por cabo, que fazia essa travessia. Muita gente chama aquilo de balsa, mas culturalmente está errado, por que as balsas são as que os balseiros faziam.

Então o Lessa queria ir até a cidade de Chapecó pra seguir viagem, só que acabou ficando preso na serra de acesso, que a época era estrada de chão. Aí ele teve que ficar uns 3 dias convivendo com o povo ali nas margens do Rio Uruguai, ouvindo as histórias dos balseiros e aprendendo sobre aquele nobre ofício.

Tempos depois o Noel Guarany recebeu a marca e gravou, dando voz e vez a essa linda e importante história dos Balseiros do Rio Uruguai.   

Oba! viva! veio a enchente
O Uruguai transbordou
Vai dar serviço pra gente
Vou soltar minha balsa no rio
Vou rever maravilhas
Que ninguém descobriu

A música já começa com o refrão e aqui conta muito da essência dos balseiros.

Eles comemoram que a enchente, que as cheias, vieram por que era a hora de colocar as balsas no rio. Desse jeito, eles conseguiam descer o Rio Uruguai da sua parte mais alta, em Chapecó até a parte mais baixa lá por Uruguaiana.

A minha esposa sempre me questionava de como que eles iam rever maravilhas que ninguém tinha descoberto? Isso é por que as belezas e também os perigos do caminho somente os balseiros tinham acesso, uma vez que eles eram os únicos a percorrerem o rio naquelas condições. Então eles voltavam pra casa e contavam das maravilhas que viam e reviam nas viagens.

Sobre a enchente, era necessário esperar o rio subir pra soltar a balsa, o ideal era o rio estar cerca de três metros acima do nível normal, era o chamado ‘ponto de balsa’, por que se o rio estava baixo, as toras iam enroscando durante o percurso. 

Possivelmente tu já viu alguma foto das balsas, mas não tem ideia da proporção delas. Essas balsas mediam cerca de 200 metros de comprimento por 15 de largura. Na frente da balsa, cerca de 100 metros, iam uma lancha ou até mais dependendo do poder aquisitivo do proprietário da madeira, e era essa lancha que direcionava a balsa do rumo certo, pra evitar que ela batesse nas margens ou nas pedras.

Uma balsa levava cerca de 250 toras de madeira e eram atadas com cipó. Era comum pintar ou marcar a propriedade nas toras pra caso a balsa se desfizesse, ficaria mais fácil identificar o dono da carga.

Amanhã eu vou me embora pros rumo de Uruguaiana
Vou levando na minha balsa cedro, angico e canjerana
Ao chegar em são Borja, dou um pulo a Santo Tomé
Para ver as la correntina e pra bailar um chamamé

As viagens de balsa cruzavam a fronteira oeste toda, descendo o Rio Uruguai. Essa viagem demorava cerca de 12 dias e as balsas não paravam por 1 minuto. Não tinha essa de parar pra descansar. Tudo era feito em cima das balsas.

Conta das madeiras que iam na balsa cedro, angico, canjerana e também muito pinheiro desceu o Uruguai. Houve um tempo que algumas madeiras foram proibidas de serem comercializadas, daí que se vem o termo ‘madeira de lei’.

Na letra fala que ia rumo a Uruguaiana, chegava em São Borja e dava cruzava a fronteira pra uma noite de chamamé em Santo Tome. Lá ia ver as correntinas, que são as mulheres da região de Corrientes. 

É importante lembrar que os balseiros só recebiam quando entregavam a carga. Geralmente quando a balsa não era vendida em São Borja, seguia viagem rio abaixo para Itaqui, Uruguaiana e Barra do Quaraí. 

Ah… como eu disse, a viagem era direta, entao em cima das balsas tinha uma casinha, coberta, com local pra dormir e também comer. Os balseiros faziam até fogo nas balsas. Era uma caixa de madeira cheia de terra e aí o fogo era sobre a terra. E lá se fazia a boia pra dar sustancia na viagem.

Ao chegar ao Salto Grande, me despeço deste mundo
Rezo a Deus e a São Miguel e solto a balsa lá no fundo
Quem se escapa desse golpe, chega salvo na Argentina
Mas duvido que se escape do olhar das correntinas

O tal do Salto Grande era como era conhecido o Salto Yucumã, que fica no Parque Estadual do Turvo, em Derrubadas. É o maior salto longitudinal do mundo, com 1800 metros de comprimento.

No leito normal, o rio nesse ponto tem locais com quedas de quase 20 metros. Mas nas épocas de cheia, o rio se emparelhava e o salto praticamente sumia. Mas mesmo assim esse trecho era o mais perigoso, pois muita balsa se arrebentava ali na hora do golpe.

Por isso que na música fala que quem se escapar chega a salvo na Argentina, por que dali a balsa embalava e só parava lá adiante. Mas só não vai escapar do olhar das mulheres correntinas. Isso por que esse ofício de balseiro era muito perigoso e quem desempenhava isso era considerado muito corajoso. Então os balseiros tinham muita moral com as mulheres.

Oba! viva! veio a enchente
O Uruguai transbordou
Vai dar serviço pra gente
Vou soltar minha balsa no rio
Vou rever maravilhas
Que ninguém descobriu

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.