Baile do Sapucay é um vanerão de composição do grande Cenair Maicá, foi gravada pela primeira vez no disco Caminhos, lançado em 1980 pela gravadora Berrante. Era a primeira música do lado B, daquele disco.

Essa música é um dos maiores sucessos da carreira do Cenair Maicá e foi regravada por diversos outros cantores como o Valdomiro Maicá, Joca Martins, Berenice Azambuja, Garotos de Ouro e por aí se vai. Hoje quando um guitarreiro ou gaiteiro dá as primeiras notas, todos já saem cantando.

E se eu te contar que essa letra é baseada em fatos reais? Olha só que coisa mais interessante. O Sapucay em questão não é o grito, mas sim o apelido de João Felipe Bernardo, o Sapucaia.

O pai do Cenair e do Valdomiro Maicá era chibeiro na costa do Rio Uruguai. E quando tava com o estoque meio cheio, mandava uma senha lá pro seu Sapucaia que era o gaiteiro pra ajeitar um baile pra distrair as autoridades.

Esses bailes eram realizados na casa do próprio Sapucaia. Arredava os móveis, limpava bem o ambiente e aí se chegava o povo pro baile.

Neste compasso da gaita do Sapucay
Se bailava a noite inteira lá na costa do Uruguai
Luz de candieiro e o cheiro da polvadeira
Hermanava castelhanos e brasileiros na fronteira

A história desse baile acontece entre os anos 40 e 60, geralmente os instrumentos eram gaita, pandeiro e violão. A gaita era tocada pelo seu Sapucaia. E o baile era a noite toda à luz de candieiro e o piso era de chão batido. Por isso subia a poeira, a polvadeira. Aí se hermanavam os castalhanos e os brasileiros.

Choram as primas no compasso do bordão
E o guitarreiro canta toda a inspiração
E a cordeona num soluço retrechando
Marca o compasso do posteiro sapateando

Não são as primas do Sapucay que tão chorando. Primas são as 3 cordas debaixo do violão, as mais finas. Bordão ou bordona é a corda mais grossa do violão, que dá o grave e marca o compasso.
Aparece o termo retrechando, que é o ato de recuar, de recolher o fole da gaita.

Neste compasso da gaita do Sapucay
Se arrastava alparagatas lá na costa do Uruguai
Chinas faceiras num um jeito provocador
Vão sarandeando, é um convite para o amor
Levanta a poeira no sarandeio das chinas
Recendendo a querosene com cheiro de brilhantina

Pense na cena desse baile de campanha… No compasso da gaita do seu Sapucay, o pessoal dançava arrastando as alpargatas, e o chinas aqui não é no sentido pejorativo, é uma referência as mulheres das redondezas que iam pra se divertir no baile. Aí sarandeavam os vestidos provocando a peonada.

E aí vai recendendo, misturando, exalando… o cheiro do querosene dos lampiões com o cheiro da brilhantina que o povo usava no cabelo. Pra quem não sabe, a brilhantina é uma pomada que o povo passava no cabelo e deixava bem armado e brilhante, muito utilizada nos anos 50 e 60. A composição da brilhantina é basicamente parafina líquida, vaselina, óleo mineral e alguma essência pra dar um cheiro.
Por isso que o cheiro dela recendia com querosene.

Neste compasso da gaita do Sapucay
O Mandico se alegrava lá na costa do Uruguai
Até a guarda costeira se esqueceu do contrabando
E o Sapucay chegava a tocar se babando
E a gaita velha da baba do Sapucay
Chegou apodrecer o fole neste faz que vai-não vai

O Mandico que se alegrava era justamente o pai do Cenair e do Valdomiro Maicá. Mandico era o apelido do seu Armando Maicá, que como já comentei era chibeiro e era ele que dava a senha pro Sapucaia ajeitar esses bailes, pra justamente a guarda costeira se esquecer do contrabando.

Então o Sapucaia se babava de tanto tocar, que chegou a apodrecer e fazer um buraco no fole da gaita.

São duas pátrias festejando nesta dança
Repartindo a mesma herança, comungando a mesma rima
Disse o Sindinho que o Uruguai beija os nubentes
Une o casal continente, pai Brasil mãe Argentina
E disse o poeta que o lendário rio corrente
Une o casal continente, pai Brasil, mãe Argentina

E como a festa era na costa do rio, em cima da divisa as duas pátrias se faziam presentes, inclusive com músicos. Geralmente nesses bailes se tocava mazurca, polca, xote e chamamé. Por isso que reparte a mesma herança e comunga a mesma rima.

E olha que trecho bonito. O Uruguai beija os nubentes, une o casal continente, pai Brasil e mãe Argentina.
As águas do Rio Uruguai beijam as duas margens, a brasileira e a a argentina. Dessa forma são nubentes, noivos. Unindo o casal. Que rica analogia!

Quem diria que essa história do Baile do Sapucay era verdadeira? Coisa rica e linda por demais do folclore costeiro e missioneiro. Confira abaixo um trecho do documentário onde o Valdomiro Maicá confirma esses fatos que comentei no vídeo e tem outros depoimentos de mais gente que participava desses bailes.

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