Criado em Galpão é uma vaneira que tem os versos e música de João Sampaio, Quide Grande e Walther Morais. Apareceu pela primeira vez no excelente CD d’Os Serranos de nome: Criado em Galpão, do ano de 1998. E é a primeira música daquele disco. 

Nessa época, o Walther Morais era um dos vocalistas d’Os Serranos e tempos depois quando se botou em carreira solo, também regravou essa baita marca.

Criado em Galpão, narra a vida e algumas passadas de um peão de estância do tempo antigo. Desses que se criavam no galpão, sempre na lida, no serviço.

E essa baita música tem muitos termos bem campeiros, então bamo dar aquela lida na letra e explicar os detalhes e significados das palavras.

Nasci na pampa azulada e da minha terra eu sou peão
Estampa de índio campeiro que foi criado em galpão
Gosto do cheiro do campo e do sabor do chimarrão
E de dobrar boi brabo a pealo nos dias de marcação

Quando se peala o boi com o laço, o boi dá com a cara no chão e se dobra devido ao impacto do pealo. Aí sem seguida se domina ele pra fazer o serviço de castração e marcação. É parte desse baita ritual.

Gosto de fazer um potro se cortar na minha chilena
Pra sentir o sopro do vento me esparramando a melena
Pra sentir o sopro do vento me esparramando a melena

Chilena é um tipo de esporas, que tem essa roseta com várias pontas. E o gaúcho da letra gosta de fazer o potro se cortar, mas não é por maldade é puramente pra mostrar que ele é tem os ofícios de domador.

Por que como bem sabemos a doma é um serviço bruto e na hora que tá domando o potro, dando os primeiros galopes de vez em quando a espora cutuca e aí corta o bicho.

Sentir o vento na cara esparramando a melena! Mostra a liberdade e o sentimento bueno que esse gaúcho tem. Melena é como a gente chama os cabelos, mas é um termo que é usado apenas pra se referir ao cabelo longo e meio desarrumado dos homens. 

Meu sistema de gaúcho é mais ou menos assim
Uso um tirador de pardo arrastando no capim
Uso uma bombacha larga com feitio do melhor pano
E um trinta ao correr da perna com palmo e meio de cano

Tirador de pardo é uma coisa do tempo antigo, hoje já não se usa mais. Pardo é uma referência ao veado pardo. Antigamente era bem comum se fazer tiradores, guaiacas e badanas com peles de animais de caça como o pardo, paca, capincho.

O trinta é uma referência ao revolver, desses de cano longo. Era bem comum antigamente o gaúcho sempre ter a guaiaca forrada de bala e também o coldre com o revólver. Pois se viajava muito solito a cavalo e tinha que se estar preparado pros peridos da natureza e do bicho homem também.

Crinudo que sacode arreio engancho só na paleta
Pois as esporas que eu uso tem veneno na roseta
Tenho um preparo de doma trançado com perfeição
Pra fazer qualquer ventena saber que é este peão

Aqui nesse verso o gaúcho segue contando das lidas como domador. Crinudo é uma referência a um animal que está em fase de doma. Tradicionalmente se deixa os potros não domados com as crinas compridas e só se corta elas depois que ele estiver pronto.

Então o potro sacode os arreios, não para quieto, não se submete as ordens do domador. Aí ele engancha na paleta do bicho, ou seja, se afirma bem crava as esporas pra não cair e fazer o cavalo se ajeitar. 

Veneno na roseta é uma força de expressão pra dizer que as esporas servem pra resolver o serviço. Até por que colocar veneno na roseta da espora só ia prejudicar a doma e o cavalo. Não é uma prática e não faz sentido.

Preparo são os arreios que o campeiro utilizada pra domar. E ele fala que são trançados com perfeição, o que mostra que o gaúcho da música também lida com corda, é guasqueiro ou sogueiro. E por mais que ele é da lida bruta, admira essa arte crioula.

Ventena ou ventana é como se chamam os cavalos de temperamento mais difícil, meio velhacos, matreiros, que corcoveiam e não aceitam fácil doma.

O dia em que eu não puder aguentar mais o repuxo
Talvez o Rio Grande diga: “Lá se foi mais um gaúcho!”
Mas enquanto eu tiver força laço, domo e tranço ferro
E na invernada do mundo mais um rodeio eu encerro

Esse último verso é uma mostra de amor ao pago e de vocação pra lida de campo. O peão diz que vai trabalhar até não aguentar o repuxo. Vai laçar, domar e até trançar ferro, se for preciso.

Tem essa expressão que é bem interessante: Trançar ferro. Tem mais de um significado e vai depender da tua interpretação.

Pode ser trançar ferro no sentido de pelear com armas brancas. A faca, adaga, espada. 

Também poderia ser uma alusão ao ato de ‘trançar as esporas’ por baixo das costelas cavalo na hora de uma gineteada ou da doma.  

No final então esse gaúcho criado em galpão, faz o que for necessário pra continuar vivendo no campo até que encerre o ultimo rodeio na invernada do seu mundo, da sua vida.

Mas que baita letra e que baita história que é Criado em Galpão. Por isso que essa música tem todo esse sucesso, por que conta a historia de tantos gaúchos anônimos que tem essa mesma lida nesses fundões de campo do Rio Grande sagrado.

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