Há um bochincho, certa feita… Fui chegando de curioso. Quantas e quantas vezes tu já não declamou ou ouviu esses versos. É uma das poesias crioulas mais declamadas nos encontros da gauchada!

Como toda a obra de Jayme Caetano Braun, Bochincho tá recheado de termos e expressões bem terrunhas que muita gente não conhece… então vou trazer esses detalhes que enriquecem muito a obra.

O poema “Bochincho” foi publicado pela primeira vez no livro “Bota de Garrão” de 1966. Eu tenho essa edição de 1982.

Bochincho é escrito em décimas, que são estrofes com 10 versos cada. E na versão original contém 17 décimas. E depois tem outra versão com 18 décimas. Mas isso eu vou te explicar lá no final. 

A palavra Bochincho significa baile, bailanta, festa, mas é aquelas festa mais rude, com gente de tudo quanto é tipo. Que geralmente dá umas peleia e umas confusão no final.

Ou como eles mesmo já verseou em Pátrias Fogoes e Legendas.

Bochincho – Baile de rancho, de baixa categoria
Vinho – cachaça – anarquia e cordeona entreverada
Bochincho de cola atada é o bailongo onde a xirua
Dança mais ou menos nua e a indiada dança pelada

Um termo que aparece na primeira estrofe é quirera. Também é falado quirela em alguns rincões. São os grãos de milho que tão pilonados ou seja triturados no pilão e que são dados aos animais, principalmente a pintaiada.

Na segunda estrofe o zaino é atado num galho de guamirim. Guamirim é uma arvorezita bem tradicional da região sul do Brasil. Geralmente se tem na volta das casas porque dá uma sombra boa e atrai a passarada.

Em seguida aparece a expressão: Em bruxas não acredito, pero que las hay, las hay. É uma expressão castelhana bem conhecida: Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay. É de autoria do Miguel de Cervantes, aquele mesmo do Dom Quixote. E significa: Em bruxas eu não acredito, mas que elas existem, existem. 

No terceiro verso é citado a forma do rancho onde acontece o tal bochincho. “Num rancho de santa fé de pauapique barreado” Rancho com telhado coberto de capim santafé  e as paredes feitas de pau a pique e preenchidas com barro.

Depois aparece o termo candieiro, que é um antiga lampada, muito comum pra campanha, que era alimentada com querosene ou oleo vegetal. Vale ressaltar que tu pode falar também candeeiro ou candiero que é a mesma coisa.

No verso seguinte tem o termo lechiguana, que é simplesmente abelha. 

Logo em seguida aparece 2 palavras pra descrever a china que é Temporona e percanta. Temporona é quando uma fruta amadurece antes do momento correto, talvez aí o Jayme tenha utilizado pra contar que a china já era uma mulher de ideia madura, mesmo sendo de pouca idade. E percanta é um sinônimo pra mulher, amante e até mesmo mulher da vida.

Mais adiante tem o termo oitavado, que é o jeito peculiar que a gente tem  de se escorar no balcão, escorando o cotovelo e cruzando uma perna. Dessa forma o corpo faz um 8, por isso oitavado.

E na mesma estrofe fala em capincho, que é o macho da capivara.

No outro verso aparece o termo pinguancha pra se referir a china. E de fato tem o mesmo significado que percanta.

Também tem o talonaço de adaga, ou seja desceu a adaga pra abrir um talho bem graúdo. 

E quando a peleia tá inflamada nesse tal bochincho, se diz: Soltei seu marca touro. Ou seja ele desce o facão da marca touro.

Mais ao final o Jayem diz que não vai ficar pra semente. Logo ele vai é fugir dali pra que não corra o risco de acabar debaixo da terra como as sementes.

Agora no final do verso tem 2 histórias interessantes sobre o Bochincho. A primeira é quanto a pelagem do cavalo do Jayme. Nesse livro ele diz: Atei meu zaino, longito, num galho de guamirim.

O Noel Guarany gravou em 1975 esse verso no disco Sem Fronteiras e lá ele fala Zaino.

Porém o Jayme gravou em seus discos Payador em 1983 e Paisagens Perdidas em 1993 Atei meu baio, longito, num galho de guarmirim…

E tem uma coletânea que é Payada, Memoria e Tempo, que são gravações ao vivo de payadas do Jayme e no volume 3, ele diz: Atei meu pingo, longito, num galho de guamirim.

E quando tu tá declamando Bochincho, depois que tu cruza o Uruguai a nado, o povo sempre pergunta: E a china?!

Na versão original, essa que tenho aqui, depois que ele diz que a história desse bochincho faz parte do meu passado, já vai pro verso final. E a china, eu nunca mais vi…

Essa é a versão que o Noel gravou e que está em Payada, Memoria e Tempo, e também em Payador, que são as versões que foram gravadas mais antigamente.

Depois, em Paisagens Perdidas é acrescentada mais uma estrofe. Onde depois de dizer: que a história desse bochincho faz parte do meu passado, aí vem uma voz e diz: E a china?! Aí ele complemente:

Essa pergunta me é feita
Em cada vez que eu declamo
É uma cosa que eu reclamo
E acho que é até uma desfeita
Acho que não é direita
E até entender nem consigo
Eu, no medonho perigo
Duma situação brasina
Todos perguntam da China
E ninguém se importa comigo!

Mas esse Jayme era tentiado! Não é de varde que é o maior poeta crioulo da nossa terra. Sua obra é sem igual. Eu sou um fã incondicional do velho Jayme.

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