Bailanta do Tibúrcio é uma vaneira com música e versos de Pedro Ortaça. Foi lançada em 1988 no épico disco Troncos Missioneiros em parceria com Jayme Caetano Braun, Noel Guarany e Cenair Maicá. É a segunda música do disco.

Essa música é inspirada em local e personagens reais. Bailanta do Tibúrcio era como era chamada a bailanta que se tinha aos finais de semana. Segundo o Ortaça, a região da Bossoroca, São Luiz Gonzaga, na época, era a maior produtora de alfafa do Brasil e então ia muita gente trabalhar ali na volta.

E o Tibúrcio tinha um bolicho ali na volta onde se vendia de tudo e aos finais de semana saia umas bailantas, que os pais do Pedro Ortaça frequentavam e de quando em vez levavam ele ainda guri pra acompanhar.

Vou contar de uma bailanta que existiu no meu Pontão
Indiada do queixo roxo que nunca floxou o garrão
Vinho curtido em barril e cachaça de borrachão

Pontão é uma localidade do interior missioneiro, onde o Pedro Ortaça se criou. E a indiada, ou seja o povo que lá frequentava, era a buena gente das missões, valentes, trabalhadoras.

Queixo roxo o queixo duro é uma referência aos cavalos que custam a ceder na hora da doma. Então se usa queixo roxo pra alguém que é valente, que custa a se entregar pras adversidades. Da mesma forma nunca floxar o garrão, que é nunca ceder, não desistir.

Vinho curtido ou seja descansado em barril e cachaça de borrachão, que é a guampa de canha.

Dona China passou rouge ajeitou bem o cocó
Cruzou o Jaguapasso lavou os pé no Jaguasengó
Na bailanta do Tibúrcio balanceava o mocotó

Dona China era a irmã do seu Tiburcio. Ela passou rouge que é aquelas maquiagem antiga das prenda. O cocó era como se referiam ao coque do cabelo.

Jaguapasso e Jaguassengo era o nome de dois rios que a Dona China precisava cruzar pra ir pra bailanta, então ela tirava as tamanca, cruzava o primeiro e depois que cruzava o segundo rio, lavava os pés. Logo mais tava balanceando o mocotó, ou seja dançando.

Os gaiteiros que eram buenos davam a mostra do pano
O Carlito e o Dezidério, o Felício e o Bibiano
Cambiando com o Juvenal num velho estilo pampeano

Os gaiteiros davam a mostra do pano ou seja abriam bem a gaita, mostravam o pano que forra o fole. E todos esses nomes citados eram de músicos que se apresentavam nessas bailantas lá no Pontão que o Ortaça acompanhava desde pequeno. E eles iam cambeando ou seja iam se trocando e revezando nas músicas.

Lembranças que são relíquias dos meus tempos de guri
Os pares todos bailando cousa mais linda eu não vi
Um agarrado no outro pra mode de não cair

Nesse verso o Pedro Ortaça afirma que ia na bailanta desde guri. Tem uma coisa interessante que nessa época os pais levavam os filhos pequenos no baile que ficam num quarto separado e podiam ficar espiando os adultos se divertirem pelas frestas. Coisa linda esses bailes de campanha.

E lá pela madrugada bem na hora do café
Dom Tibúrcio o mestre sala gritava batendo o pé
Agora levanta os home para cumê as muié

Esse verso por ser mal interpretado por alguns e também por não conhecerem os costumes já fez com que essa relíquia do nosso cancioneiro fosse proibida em alguns ambientes.

Era comum nesses bailes servir um café durante a madrugada, da mesma forma que os homem se serviam primeiro e depois de satisfeitos, o anfitrião da festa anunciava com muito respeito e bom humor: Agora levanta os home pra come as muié.

Milho assado era o catete plantado de saraqüá
Feijão preto debulhado a bordoada de manguá
Bóia melhor do que essa lhes garanto que nao há

Catete é uma variedade de milho muito comum antigamente. O saraqüá é uma ferramenta utilizada no plantio do milho. É uma vara com ponta que tu usa pra abrir a terra e jogar as sementes dentro do buraco.

Manguá também é uma ferramenta. Essa utilizada pra debulhar o feijão. Composta de duas varas unidas por um tento de couro, um fiel, onde uma tu segura na mão e a outra bate sobre as vagens secas do feijão que vão se abrindo e voltando os grãos.

É lá no velho Pontão linda terra de fartura
Queijo, ambrosia e melado, bolo frito e rapadura
Batata deste tamanho e mandioca desta grossura

Neste verso o Pedro Ortaça dá aquela gavada buena na sua terra, como todo bom gaúcho gosta de fazer. Até por que a gente bem sabe que a melhor terra é sempre a do nosso pago.

Mas que tempo aquele tempo que se vivia feliz
Só a saudade restou lá no garrão do país
Da bailanta do Tibúrcio vertente, cerne e raiz

E termina com esse verso loco de lindo! Falando que aqueles tempos que se vivia feliz com tão pouco, onde a vida era tão simples deixaram muitas saudades. Da mesma forma as bailantas de campanha!

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