Entrando no M’Bororé é um milongão que tem os versos de João Sampaio e a melodia do Elton Saldanha. Foi apresentada pela primeira vez no ano de 1992 no palco da 12ª Coxilha Nativista, em Cruz Alta na voz de José Cláudio Machado.

Essa música conquistou o prêmio de 2º lugar no festival. A banda que acompanhou era composta por: Ricardo Martins, que tocou violão e gaita botoneira, Elton Saldanha que fez voz e violão e o Ernesto Fagundes na voz e no seu bumbo leguero.

Tem 2 curiosidades a respeito dessa música: A primeira é que o nome original dela é “Uma tarde no corredor”, mas acertadamente resolveram mudar para Entrando no M’Bororé!

A segunda é meio lendária, que diz que o José Cláudio Machado só cantou essa música nessa ocasião do festival e depois prometeu nunca mais cantar! Isso por que ele havia errado a letra na apresentação final, o que não deu o prêmio de primeiro lugar a essa obra.

Entrando no M’Bororé é uma música que foi gravada por diversos artistas, podemos citar: o próprio Elton Saldanha, Grupo Quero-Quero, Garotos de Ouro, Jorge Guedes, Walther Morais, Oswaldir e Carlos Magrão, Jorge Freitas e teve até uma versão do Rock de Galpão.

Essa música narra um gaucho, a cavalo, cruzando uma estrada e chegando na sua casa, só que tapado de poesia gauchesca. E ainda faz homenagem a duas pessoas. Bamo então dar uma lida na letra e depois bamo explicando verso a verso.

Lá vem o Vítor solito, entrando no M’Bororé
E um cusco brasino ao tranco, na sombra do pangaré
Chapéu grande, lenço negro, jeitão calmo de quem chega,
Na tarde em tons de aquarela, lembra um quadro do Berega.

Nesse primeiro verso é descrito algumas características do gaúcho e também do dia. O Vitor é Vitor Escobar, amigo do compositor, que era um peão que vivia ali na Região do MBororé, no interior de Macaçmbará, entre São Borja e Itaqui.

Cusco brasino é uma referencia ao pelo do cachorro, com manchas avermelhadas, mais escuras, como se fosse uma brasa. Pangaré é a pelagem do cavalo que o Vitor está montando.

Muita gente confunde pangaré com um cavalo ruim, imprestável, só que na verdade é uma característica da pelagem do cavalo, apresentando manchas mais claras no focinho, nas virilhas e axilas do bicho.

Depois diz que lembra um quadro do Berega, ou seja, o final de tarde tava bem lindo, desses emoldurar e pendurar na parede. Berega é o Luiz Alberto Pont Beregaray, pintor gaucho. Tem um vídeo especial sobre o Berega aqui.

Então essas duas pessoas que são homenageadas na música, o Vitor Escobar e o Berega.

O flete troteando alerta, bufa e se nega pros lados,
E uma perdiz se degola no último fio do alambrado;
Apeia na cruz da estrada e o seu olhar se enfumaça,
Saca o sombrero em silêncio por respeito a sua raça.

Flete é o cavalo de confiança, mais bonito, aquele que o gaúcho confia e tem mais apreço. E esse cavalo bufa e se nega, deve ser por causa do susto que levou da perdiz, que levantou vôo e se degolou no alambrado, na cerca de arame, que a gente tem na beira dos corredores, das estradas do interior que fazem as divisas.

E a perdiz é essa ave nativa aqui do Sul que tem uns vôos curtos e baixos e acontece de quando em vez se degolar no fio das cercas.

Aí em seguida ele apeia perto de uma cruz e fica com os olhos pesados, o olhar se enfumaça, fica turvo, sente a saudade do ente querido. E tira o chapéu em lembrança a essa pessoa que deveria ser bem próxima e sua parente, pois diz, por respeito a sua raça.

Lá vem o Rio Grande a cavalo entrando no M’Bororé
Lá vem o Rio Grande a cavalo, que bonito que ele é.

E é bueno esse refrão, daqueles que todos sabem cantar. E cantam de peito cheio! E de tão famoso que ficou esse refrão, chegou a mudar o nome da música.

Aqui compara o gaúcho a cavalo com o próprio Rio Grande. Na figura desse gaúcho estão todos os sentimentos e características da nossa cultura. A força, o respeito, a postura, a hombridade.

Procura a volta do pingo e alça o corpo sem receio,
Enquanto uma borboleta senta na perna do freio.
Inté interte o cristão que se cruza campo afora,
Mirar a garça matreira no seu pala cor de aurora.

Como ele tinha parado na cruz, agora ele ajeita o pingo e alça o corpo, ou seja monta o cavalo. E nessa hora uma borboleta pousa bem na perna do freio. Isso é pra mostrar as pequenas belezas do campo, que muitas vezes passam despercebidas aos nossos olhos.

E o gaucho se perde admirando o campo, olhando uma garça matreira com um pala cor de aurora. Confesso que aqui eu sempre achei que fosse a garça vaqueira, que também é conhecida por garça boieira e essa sim fica sob os animais no campo e tem uma marca no lombo mais avermelhada, tal qual uma aurora.

Mas na letra diz garça matreira e esse termo significa arisca, selvagem, dificil de capturar.

Pois lá num rancho de leiva que ele ergueu com seu suor,
Fica um sonho por metade de quem vive sem amor…
Num suave bater de asas, cruza um bando sem alarde
E as garças e o Vítor somem lá na lonjura da tarde.

Rancho de leiva é um rancho construído de leivas de terra, que são sobrepostas entre os pilares e varejões e a cobertura é geralmente de capim santa-fé.

E o gaúcho construiu esse rancho solito e o sonho ficou pela metade por que ele não tem a prenda amada pra completar o rancho, seu sonho e sua vida. Então ele volta a pegar a estrada e se some no horizonte como um bando de garças.

Entrando no M’Bororé é essa baita obra do nosso cancioneiro regional. Saiu do palco da Coxilha e ganhou o coração dos gaúchos!

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