Nego Betão é uma vaneira que tem a composição numa parceria do João Sampaio e do Jorge Guedes. Foi lançada em 2013 no CD Sem tinta, do Jorge Guedes e Família.

Pra quem não sabe, essa música é uma homenagem, ainda em vida para José Alberto Valeriano, popularmente conhecido por  “Nego Betão”. Foi peão de tropa, capataz, era laçador de mão cheia, boleador, ginete… Foi um legítimo homem de campo.

Ele participou do clipe de lançamento da música mostrando algumas habilidades campeiras e também algumas imagens com recuerdos da sua vida. Ele faleceu no dia 28/11/2013, aos 73 anos, vítima de um infarto. Um dia antes, ele tinha sido homenageado ao vivo no Jornal do Almoço quando o Jorge Guedes tinha ido lançar o CD Sem Tinta lá.

Além do Jorge Guedes outros artistas gravaram essa baita marca como Cesar Oliveira e Rogério Melo e Os Serranos.

Nego Betão conta alguns momentos da vida do homem de forma meio metafórica e tem uns termo véio bem regional. Então bamo dar aquela lida na letra e explicar os detalhes dos versos.

La vai o Nego Betão
Com aperos de couro cru
Mais galo que o Tiarajú
Num gateado marchador
Pois já nasceu campeador
E é daqueles, meu irmão,
Que sai dando co’as duas mão
Num bicho corcoveador

O verso apresenta o Nego Betão como um gaúcho da velha templa. Até diz que já nasceu campeador. Usa aperos de couro cru. Anda bem galo, entonado num gateado. 

E se o bicho é corcoveador, não se acanha e mostra os dotes de campeiro e aí sai dando com as duas mãos… que é uma licença poética pra dizer que se o peão vai cansando o braço direito de tanto descer o mango, aí ele troca de mão e segue na lida. 

Gauchão da velha templa
Que o tempo não engoliu
Uma bugra lhe pariu
Bem na costa de um lenheiro
Guarda o feitiço galponeiro
De centauro deste chão
Que envelheceu na amplidão
Lidando com caborteiro

Neste verso ele de forma bem resumida a vida do Nego Betão. Ser alguém da velha templa, da velha linhagem, de traços antigos que o tempo não mudou.

Ele é crioulo dessa terra, nasceu no campo, filho de mãe bugra. Em sua estampa guarda os resquícios atávicos dos gauchos antigos, que foi amadurecendo na amplidão do campo trabalhando com a cavalhada.

Ele cita o termo caborteiro, que é uma referência aqueles animais mais ariscos, manhosos, que veiaqueiam e precisam de um gaucho da estirpe do Nego Betão pra ajeitar eles. 

Lá vem o Nego Betão
Que China e bala não ‘popa’
Mais taura que um rei no trono
Chapéu tapeado na copa
Abrindo o peito estrada afora
Bem na culatra da tropa

E que baita refrão esse! Nego Betão não poupa bala e bem china. O homem não era fraco mesmo. É uma referência que ele era namorador e também brigador, valente.

Essa referência a realeza é ao trono dos bastos. É quando ele está a cavalo, bem entonado, chapéu bem tapeado e abrindo o peito na estrada, tocando a tropa.

Nesse ultimo verso tem essa referência a um dos ofícios do Nego Betão, ele foi tropeiro e pelo visto fazia a culatra ou seja, era responsável pela parte de trás, a retaguarda da tropa.

Profeta xucro dos galpões
Que sempre tem argumento
Proseia com o próprio vento
E passa por louco, talvez
O que ele tem em campo e rês
Nunca foi dele amigaço
E se um dia sobrar um pedaço
Reparte com uns dois ou três

Neste verso apresenta alguns traços da personalidade do Nego Betão. Profeta xucro, sabe das coisas tem argumentação, conhece da lida e da vida.

Essa de prosear com o vento é bem coisa de quem sai camperear solito campo a fora e acaba se perdendo nos pensamento e até falando solito, parece loco, mas não é.

E mostra a realidade do peão de campanha, trabalha em uma larga extensão de terra, apinhado de gado, mas nada daquilo lhe pertence.

Outra coisa que apresenta é a generosidade do gaúcho. Vive com pouco e se preciso for, ainda divide aquilo com os outros próximos que precisam mais que ele.

No lugar que esse índio laça
Fica um buraco no chão
Dos pealos de paletão
Cerrando só nos dois cascos
Nasceu pegado no basto
E quando o maula sai berrando
O mango véio vai cruzando
Arrancando terra com pasto

Nesse verso ele conta que o Nego Betão é metido na hora de pealar. Laça tão firme o que quando o animal tomba, chega a ficar um buraco no chão. Cerrando é co m C, de cerrar, apertar. Não é cortar fora.

Conta que o Nego Betão anda a cavalo desde pequeno, nasceu pegado no basto! E quando pega um maula que é um cavalo imprevisível, velhaco ele vai cruzando o mango, batendo dos dois lados da anca do animal. Também se diz: sai benzendo com o mango!

Lá vem o Nego Betão
Que china e bala não ‘popa’
Mais taura que um rei no trono
Chapéu tapeado na copa
Abrindo o peito estrada afora
Bem na culatra da tropa

Mas é buena por demais essa marca e fica melhor ainda quando a gente entende os detalhes e sabe que é uma homenagem a um desses gaúchos de fundamento. Jose Alberto Valeriano, o Nego Betão passou por esses pagos e fez a sua história! Honrou o pago gaúcho com seu trabalho e com a sua alma campeira.

Esse é o meu entendimento a respeito da música Nego Betão, se tu sabe de mais algum detalhe comenta aí e bamo seguir discutindo as coisas buenas da nossa terra.

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