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Tordilho Negro originalmente é uma toada, uma toada, de autoria do Teixeirinha. Foi lançada no ano de 1966 no disco: Teixeirinha no Cinema, pela gravadora Chantecler e era a 5º música do lado B do disco.

Mas há uma controvérsia quando ao real autor de Tordilho Negro. Segundo uma matéria do Jornal Folha do Mate e do blog Allma Gaúcha a autoria da música é de Dirceu Inácio Pires, conhecido como Détio Pires e hoje mora em Passo do Sobrado, perto de Santa Cruz do Sul.

Conta ele que compôs a música nos anos 50. E numa feita foi apresentar ela em um programa de rádio de Rio Pardo que era comandado pelo Teixeirinha. Tempos depois ouviu a música dele sendo tocada pelo Teixeirinha, mas só que com outra melodia. Originalmente, o Detio tinha composto Tordilho Negro como uma valsa.

Mas ele nunca recorreu a justiça pois ele não tinha registros disso. Detio conta que no final do ano de 1985 ia ter um rodeio no interior de Santa Cruz do Sul e ele tinha combinado com o Teixeirinha para se encontrarem e fazerem o reconhecimento da autoria. Mas 8 dias antes do encontro, Teixeirinha faleceu. 

Então olha só que coisa curiosa. Originalmente Tordilho Negro foi composto como uma valsa, depois Teixeirinha gravou como uma toada, uma vaneirinha e agora ele é tocado e dançado como chamamé.

Tordilho Negro já foi gravado inúmeras vezes e aparece em várias coletâneas de música gaúcha. Além de ser presença certa em qualquer encontro de gauchada que tenha uma gaita e um violão. E todo mundo canta.

Então agora bamo dar aquela esmiuçada na letra pra compreender bem a história por trás dela.

Correu notícias que um gaúcho / Lá da Estância do Paredão
Tinha um cavalo tordilho negro / Foi mal domado ficou redomão
Este gaúcho dono do pingo / Desafiava qualquer peão
Dava o tordilho negro de presente / Prá quem montasse sem cair no chão
Eu fui criado na lida de campo / Não acredito em assombração
Fui na estância topar o desafio / Correu boato na população

Segundo o Detio, essa música uma história que ele presenciou. Quem seria o narrador da história era Sebastião dos Anjos, tio do Detio e domador de mão cheia. Certa feita ele estava num bar e ouviu um homem de nome Afonso Becker, proprietário da Estância Alto Paredão, ofereceu um tordilho negro pra quem conseguisse montar e domar ele.

Tem muita gente que ouve a música e não faz ideia do que é um tordilho negro. Tem gente que acha que é o nome do cavalo e até já ouvi cantarem “Todinho Negro”. Tordilho Negro é a pelagem do cavalo. 

Tem esse verso “Foi mal domado ficou redomão” que desagrada muita gente por que Redomão é um termo utilizado pros cavalos que estão em fase de doma. Sei que esse verso desagrada muito o povo da doma por que não seria o termo correto a ser utilizado, ao invés de redomão poderia ser bolido ou aporreado. Além de que a questão do mal domado é bem discutível, pq tem cavalos mal domados que tu pode andar sem problemas, só não farão todos os movimentos.

Depois fala: “Este gaúcho, dono do pingo”: Pingo é um sinônimo pra cavalo, mas deve ser utilizado pra designar os melhores animais de montaria ou os parelheiros, de corrida.

Era um domingo clareava o dia / Puxei o pingo e o povo reuniu
Joguei os trastes no lombo do taura / Murchou a orelha, teve um arrepio
Botei a ponta da bota no estribo / Algum gaiato por perto sorriu
Ainda disseram comigo eram oito / Que boleou a perna montou e caiu

Vou te contar que o ginete da música devia ser famoso, por que reuniu o povo pra ver ele. Vale lembrar que a letra é dos anos 50 e a comunicação era mais devagar naqueles tempo.

Trastes são os arreios mais velhos, surrados. Poderia ser dito também as garras. Taura é uma palavra que dá o sentido de forte, valente, destemido.

O tordilho negro murcha a orelha, que é uma reação de que o cavalo não está confortável, é um comportamento que indica que o animal está nervoso, desconfiado.

E ao que indica foram 7 ginetes que tinham tentado montar o tordilho sem sucesso. E como em todo o lugar sempre tem uns gaiato perto pra incomodar e dizer que tu não vai conseguir.

Saltei do lombo e gritei pro povo / Este será o último desafio
Tordilho negro berrava na espora / Por vinte horas ninguém mais nos viu
Mais de uma légua o pingo corcoveou / Manchou de sangue a espora prateada
Anoiteceu o povo pelo campo / Procurando um morto pela invernada
Compraram vela fizeram um caixão / A minha alma estava encomendada
A meia noite mais de mil pessoas / Deixaram da busca desacorçoadas

Mas te conto que 20 horas na gineteada é tempo. Geralmente nas gineteadas é 8 segundo só.

Então aqui o home conta que se largou com o cavalo relinchando nas espora por mais de 1 légua. Bamo levar em conta que é 1 légua de sesmaria, que dá mais ou menos uns 6 km, então as invernada da Estancia do Paredão eram grandes.

E agora te conto do evento que foi essa lida. Pra mais de mil pessoas irem de atrás do gaúcho e do tordilho, aí é demais, né.

Dali a pouco ouviram um tropel / Olharam o campo noite enluarada
Eu vinha vindo no tordilho negro / Feliz saboreando uma marcha troteada
Boleei a perna na frente do povo / Deixei a rédea arrastar no capim
Banhado em suor o tordilho negro / Ficou pastando ao redor de mim

Eu acho que esse verso se passa lá 2h da manhã, por que ele fala que era o clarear do dia de um domingo, por volta das 06h a hora que ele monta no tordilho e fica 20h sem ninguém ver ele, até que o povo ouve um bater cascos no chão e olham pro campo e vinha vindo o gaúcho montado no tordilho a trote ainda. Te falo de preparo físico dos dois.

Aqui ele volta a usar o termo bolear a perna, no sentido de jogar a perna direita por cima do lombo quando monta e agora quando apeia do cavalo. Bolear tem vários sentidos, inclusive esses de subir, descer, se jogar, se botar.

E agora quem já acompanhou uma lida dessas, deve imaginar como que estaria o estado dos dois. Pense no peão, suado, com as mãos destruídas, talvez até cortadas, de tanto segurar as rédeas. O cavalo que já tava manchando as espora de sangue no início, como que tá o estado da boca do animal, o cansaço, a fome. Afinal essa lida é algo que consome muita energia e é bruta uma barbaridade.

Em condições reais, ambos estariam acabados. E não ia dar pra fazer o que acontece no próximo verso.

Tinha uma prenda no meio do povo / Muito gaúcha e eu falei assim
Venha provar a marcha do tordilho / Faça o favor e monte de selim
Andou no pingo mais de meia hora / Deu-me uma rosa lá do seu jardim
Levei pra casa o meu tordilho negro / É mais uma história quem chega no fim

E pra provar os dotes dele como ginete e domador, pediu pra prenda montar de selim, que é aquela forma de se montar de lado que as mulheres adotam quando estão de vestido.

E pra finalizar a prenda colhe uma rosa do jardim e dá de regalo pro peão que se lava alma. Então o dono da fazenda cumpre o prometido e dá o cavalo pra ele que vai embora e acaba mais uma história.

Como a gente pode perceber, Tordilho Negro é uma música baseada num causo que não tem como ter acontecido ou se aconteceu, foi bem diferente. É bem romantizado e abusa das proporções das coisas.

Talvez por isso a música tenha virado quase que folclórica e é um dos grandes clássicos da música gaúcha.

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