Um Bagual Corcoveador é uma vaneira que tem os versos de João Sampaio e Quide Grande e a melodia é de Walther Morais. Mas ela fez muito sucesso na inconfundível voz do João Luiz Correia. 

O João gravou pela primeira vez no CD Campeirismo, no ano de 1998. Em 2006 gravou ao vido no CD Campeirismo VI. Depois em 2009 em O melhor do Campeirismo (ao vivo). Em 2010 aparece no CD Duplo – 10 Anos de Sucesso (CD Duplo). Em 2014 no CD especial de 15 anos. 

O Walther Morais também gravou essa música em 1998 no CD Não É Gaúcho Quem Não Gostar de Cavalo e depois em 2007 no Ao vivo em Criúva. Outros artistas que também gravaram a música foram: Garotos de Ouro, Oswaldir e Carlos Magrão e até o Baitaca.

Eu fiz uma pesquisa rápida e no Spotify e Youtube e se somar todas as reproduções passa dos 30 milhões de visualizações. Fora as outras milhões de vezes que é tocada nos bailes dessa nossa terra gaúcha. Por que é presença certa em qualquer bailanta.

E como essa música corre o Brasil inteiro, tem muita gente que não sabe o que os termos campeiros significam, então bamo dar aquela lida na letra e explicar os detalhes.

A tropa vinha estendida pastando no corredor
Eu empurrava a culatra, também fazia o fiador

Então o campeiro da música vinha tocando uma tropa no corredor. Corredor são as estradas do interior que tem cerca nas laterais. Com diz que a tropa estava pastando é porque vinha numa marcha lenta, pros animais não perderem peso durante a tropeada.

Como era uma tropa pequena, fazia duas funções, a culatra que é quem fica atrás e o fiador é a lateral. A titulo de curiosidade uma tropeada geralmente é formada por 4 peões. 1 na culatra, atrás. 2 fiadores, nas laterais e 1 ponteiro, na frente.

Num bagual gordo e delgado, arisco e corcoveador
Que se assustava da estaca e da sombra do maneador

Aqui ele descreve o cavalo, tanto no fisico como no comportamento. Gordo e delgado. parace até controvérsia, mas a gente poderia dizer que o bagual tava adelgaçado, que é quando o cavalo tá com uma boa forma física. Bem alimentado, forte e com reservas de energia.

Arisco e corcoveador é que o cavalo era meio ligeiro, assustado por natureza, que não dava pra facilitar em cima dele. Ele se assustava da estaca e da sombra do maneador. Estaca é o local onde se amarra o cavalo pra descansar ou passar a noite. Maneador é uma lonca larga ou trançada que se leva nos arreios pra prender o cavalo, numa estaca por exemplo. 

É braba a vida de um taura que só trabalha de peão
Nisso uma lebre dispara debaixo de um macegão
Meu pingo só deu um coice, escondendo a cara nas mãos
Saiu sacudindo o toso e cravou o focinho no chão

Ele fala que a vida do peão é difícil, puxada… E de repente no meio do pensamento, uma lebre salta de trás da macega. Macegão são essas capoeiras que tem no campo e na beira das estradas.

E como o cavalo ainda é arisco, se assuta e dá um coice no instinto pra se defender. E em seguida esconde a cara nas mãos. As mão são as patas dianteiras dos cavalos. Então o bagual coloca a cabeça no meio das patas e sai corcoveando a torto e direito. Baixando a cabeça, cravando o focinho no chão.

Tentei levantar no freio mas era tarde demais
Eu vi uma poeira fina formando nuvens pra trás
Berrando se foi à cerca e cruzou pro lado de lá
Parecia uma tormenta cruzando em Maçambará

Aí o gaúcho tenta trazer o cavalo de volta no freio, tomar o controle da situação, mas era tarde demais… E naquela lida de corcoveada ele só repara na polvadeira que sobe. 

O cavalo se larga sem controle em direção a cerca e cruza por cima, tal qual uma tormenta. E Maçambará é um município da região oeste, fica ali perto de Itaqui.

Se enganchava nas esporas sobre a volta do pescoço
Cortando couro com pêlo e tirando lascas de osso
Naquele inferno danado bombiei pro meu cebolão
Regulava quatro e pico numa tarde de verão

O peão enganchava as espora por baixo do pescoço pra se manter firme em cima. Era como uma briga de gaúcho e cavalo. E nisso chegava a cortar o animal. E no meio dessa peleia toda ainda conseguiu olhar as horas no relógio. Mas te falo de ginete! 

Senti a força do vento me arrancando dos arreios
E aquele bicho parecia que ia se rasgar no meio
Deixei manso e de confiança montaria de patrão
Pois honro o nome que carrego e orgulho de ser peão

A força do vento pode ser uma referência a velocidade do cavalo, que além de rápido ainda corcoveada a reviria, parecendo que ia se desmanchar.

Mas ele não desiste e continua naquela lida até vencer o cavalo e deixar ele pra montaria de patrão. Bem manso e de confiança. Esse termo montaria de patrão era utilizado por que muitos dos patrões das estâncias eram meio maturrengo ou na maioria não eram exímios cavaleiros.

E como todo bom gaúcho honra o nome que carrega acima de tudo e tem orgulho da sua lida de peão e domador, que deu jeito nesse bagual corcoveador!

Comentários
  1. Vale ressaltar também que Maçambará não foi colocado na letra somente por ser um município. É de conhecimento que o município de Maçambará e seus arredores é um dos locais que mais recebe tormentas durante o ano no estado (e algumas bem severas).

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